Apostila: O que é a Bíblia?

O que é a Bíblia?

Ao contrário do que parece à primeira vista, a Bíblia não é um livro único e independente, mas uma coleção de 73 livros, uma mini-biblioteca que destaca o a aliança e plano de salvação de Deus para com a humanidade. É interessante observar que alguns livros possuem poucas ou até mesmo uma única página escrita, mas mesmo assim são considerados como livros.
A própria palavra Bíblia provém do grego biblos e significa livros, o que bem demonstra não ser a Bíblia um livro único. Assim, quando usamos hoje a palavra "Bíblia" nos referimos a esse conjunto de 73 livros.
Às vezes, também a chamamos de Sagradas Escrituras ou tão somente Escrituras e tratam de diversos assuntos: orações, rituais, história, sabedoria, exortações e até mesmo poesia... tudo em grande harmonia - já que inspirada por Deus - relacionando o homem com o único e verdadeiro Deus, e vice-versa.
A Bíblia é muito antiga: sua redação começou por volta do séc. XV a.C. e somente se encerrou no final do séc. I d.C.. Esse é, aliás, o motivo pelo qual muitas passagens são difíceis de serem compreendidas, obrigando-nos, às vezes, a recorrer a cursos bíblicos ou outros livros de apoio.

Introdução à Bíblia

1. - A BÍBLIA É ÚNICA
 A Bíblia Sagrada, por tudo o que encerra, pela maneira como foi escrita, e da forma como tem sido preservada por tantos séculos, só pode ser definida numa palavra: "única"
O dicionário define "único", como: 1. Que é um só; 2. De cuja espécie não existe outro; 3. exclusivo; excepcional; 4. a que nada é comparável; 5. superior a todos os demais.
M. Monteiro Williams, antigo professor de sânscrito, que passou 42 anos estudando livros orientais e comparando-os com a Bíblia, afirmou: "Se você quiser, empilhe-os no lado esquerdo de sua escrivaninha; mas coloque a sua Bíblia do lado direito - apenas ela, só ela - e que haja uma boa distancia entre a pilha de Livros e a Bíblia. Pois existe uma grande distancia entre ela e os chamados livros sagrados do Oriente, de modo que estes se opõem àquela, total, completa e definitivamente; um abismo real que nenhuma ciência do pensamento religioso conseguirá transpor" (J.Mc Dowell, "Evidencia que Exige um Veredicto", pg.19,20).
 

2. ÚNICA NA SUA COERÊNCIA:
É livro "diferente de todos os demais" nos seguintes aspectos (além de muitos outros):

  1. Escrito durante um período de aproximadamente 1600 anos;
  2. Escrito durante mais de 40 gerações;
  3. Escrito por cerca de 40 autores, das mais diferentes atividades, tais como: reis, camponeses, filósofos, pescadores, poetas, estadistas, estudiosos, etc.: Moisés, um líder político, que estudou nas universidades do Egito; Pedro, um pescador; Amós, um boiadeiro; Josué, um general; Neemias um copeiro; Daniel, um diplomata; Lucas, um médico; Salomão e Davi (reis e poetas); Mateus (cobrador de impostos); Paulo (rabino); Esdras (escriba e sacerdote).
  4. Escrito em diferentes lugares: no deserto; numa masmorra; nos palácios de Susã, na Pérsia; nas prisões; em viagens; numa ilha, exilado;
  5. Escrito em diferentes condições e circunstâncias: em tempos de paz e em tempos de guerra; em tempos de alegria, e em tempos de profunda tristeza; em tempos de liberdade, e sob o cativeiro;
  6. Escrito em três continentes: Ásia, África e Europa;
  7. Escrito em três idiomas:
    Hebraico (a língua do Antigo Testamento) Em 2Reis 18:26-28 essa língua é chamada de "judaica"; Em Is. 19:18 é chamada de "língua de Canaã");
    Aramaico (a língua "franca" do Oriente Próximo até à época de Alexandre, o grande (século VI ao século IV a.C., tendo permanecido em uso, paralelamente ao grego, por judeus e palestinos até à época de Cristo);
    Grego, a língua do Novo Testamento. Era o idioma de uso internacional à época de Cristo.
  8. A Bíblia trata de centenas de temas controversos (aqueles que podem gerar opiniões divergentes, quando mencionado ou discutido). Os autores bíblicos falaram de centenas de temas controversos, com harmonia e coerência, desde Gênesis a Apocalipse, revelando uma única história: - "A redenção do homem por parte de Deus". Assim, o "Paraíso Perdido" de Gênesis, se torna o "Paraíso Recuperado" do Livro de Apocalipse. Enquanto que o acesso à árvore da vida está fechado em Gênesis, encontra-se aberto para todo o sempre em Apocalipse. A grande diversidade dos escritos da Bíblia tratam de: lei (civil, criminal, ética, ritual, sanitária), história, poesia religiosa e lírica, textos didáticos, parábolas e alegorias, biografia correspondência pessoal, reminiscências pessoais, diários, alem de estilos caracteristicamente bíblicos de literaturas proféticas e apocalípticas". Por tudo isso a Bíblia não é uma simples antologia. Existe uma unidade que dá coesão ao todo. Uma antologia é compilada por um antologista, mas nenhum antologista compilou a Bíblia.


3. ÚNICA EM CIRCULAÇÃO
A Bíblia
tem sido lida por mais pessoas e publicada em mais línguas do que qualquer outro livro. Existem mais cópias impressas de toda a Bíblia e mais porções e seleções dela do que de qualquer outro livro em toda a história. Em termos absolutos não existe qualquer livro que alcance, ou que mesmo comece a se igualar à Bíblia, em termos de circulação.
O primeiro grande livro a ser impresso foi a "Vulgata" (versão da Bíblia em latim), impressa por Gutemberg.

4. ÚNICA EM TRADUÇÃO
A Bíblia
foi um dos primeiros livros importantes a ser traduzido (Septuaguinta: tradução em grego do Antigo Testamento hebraico, por volta de 250a.C.). A Bíblia tem sido traduzida, retraduzida e parafraseada mais do que qualquer outro livro existente. A Enciclopédia Britânica informa que " até 1966 a Bíblia completa havia aparecido em 240 línguas e dialetos; um ou mais livros da Bíblia em outros 739 idiomas, num total de 1280 línguas". Entre 1950 e 1960 3.000 tradutores da Bíblia estiveram trabalhando na tradução das Escrituras. Os fatos colocam a Bíblia numa condição única ("de cuja espécie não existe outra") em termos de tradução.

5. ÚNICA EM SOBREVIVENCIA

  1. Através dos tempos.
    Ser escrita em material perecível, tendo que ser copiada e recopiada durante centenas de anos, antes da invenção da imprensa, não prejudicou seu estilo, exatidão ou existência. Comparada com outros escritos antigos, a Bíblia possui mais provas em termos de manuscritos do que, juntos, possuem os dez textos de literatura clássica com maior número de manuscritos. Os judeus a preservaram como nenhum outro manuscrito foi jamais preservado. Com a "massora"(parva, magna e finalis) eles verificavam atentamente cada letra, sílaba, palavra e parágrafo. Dentro de sua cultura, eles dispunham de grupos de homens com funções específicas, cuja única responsabilidade era preservar e transmitir esses documentos com uma fidelidade praticamente perfeita, eram "escribas, copistas e massoretas". Quem alguma vez contou as letras, sílabas e palavras dos textos de Aristóteles ou Platão? de Cícero ou de Sêneca?
  2. Em meio a perseguições.
    Como nenhum outro livro, a Bíblia tem suportado os ataques malévolos de seus inimigos. Muitos tem procurado queimá-la, proibi-la e torná-la ilegal, desde os dias dos imperadores romanos até os dias de hoje, nos países dominados pelo comunismo, islamismo, ou pagãos radicais. Voltaire, o renomado francês, incrédulo, que morreu em 1778, afirmou que, cem anos depois dele o cristianismo estaria varrido da face da terra e teria passado à história. Mas aconteceu que, Voltaire passou à história, ao passo que a circulação da Bíblia continua a aumentar em quase todas as partes do mundo, levando bênçãos aonde quer que vá. Em 303 A.D. o imperador Diocleciano proclamou um edito para impedir os cristãos de adorarem Deus e para destruir as Escrituras. Eusébio registra o edito proclamado 25 anos após, por Constantino, sucessor de Diocleciano, para que se preparassem 50 cópias das Escrituras às expensas do governo.
  3. Em meio às críticas
    Durante dezoito séculos os incrédulos tem refutado e atacado esse livro, e, no entanto, ele está hoje firme como uma rocha. Aumenta sua circulação, é mais amado, apreciado e lido do que em qualquer outra época. Por mais de mil vezes badalaram os "sinos" anunciando a morte da Bíblia, formou-se o cortejo fúnebre, talhou-se a inscrição na lápide e fez-se a leitura da elegia fúnebre. Mas por alguma maneira o cadáver nunca permaneceu sepultado. Nenhum outro livro tem sido tão atacado, retalhado, vasculhado, examinado e difamado. Que livro de filosofia, religião, psicologia ou literatura do período clássico ou moderno, sofreu um ataque tão maciço como a Bíblia? Apesar de todos os ataques, a Bíblia é amada por milhões, lida e estudada por milhões. Críticas, como por exemplo da "hipótese documental", que argumenta que o Pentateuco não poderia ter sido por Moisés, pois, segundo esses críticos, à época de Moisés não havia escrita, ruem por terra, pois a arqueologia descobriram o "obelisco negro". Tinha caracteres uniformes e continha as leis de Hamurabi. Era um texto pós-Mosaico? Não! era pré-Mosaico. E não apenas isso, mas era pelo menos três séculos anteriores a Moisés, o qual supunham que era um homem primitivo e não dispunha de alfabeto. Também falharam os defensores da "hipótese documental" quando asseveravam que não existiam heteus à época de Abraão, pois não existiam outros registros sobre esse povo. Deviam ser um mito. Estavam errados mais uma vez. Fruto da pesquisa arqueológica, hoje existem centenas de referencias se sobrepondo umas às outras e cobrindo mais de 1200 anos da civilização dos heteus.

6. Única nos Ensinos.

  1. Profecia. Wilbor Smith, que formou uma biblioteca pessoal de 25.000 volumes, chegou à conclusão de que "não importa o que alguém pense sobre a autoridade do livro que chamamos de Bíblia e sobre a mensagem que ele apresenta; o fato é que existe uma aceitação generalizada de que, por inúmeras razões, esse é o livro mais notável que já foi produzido nestes aproximadamente cinco mil anos em que a raça humana domina a escrita". "É o único volume já produzido pelo homem, ou por um grupo de homens, em que se encontra um grande corpo de profecias a respeito de nações, em particular de Israel, de todos os povos da terra, de certas cidades e daquEle que viria e deveria ser o Messias. O mundo antigo possuía muitos e diferentes meios para determinar o futuro, o que é conhecido como "prognosticação", mas na totalidade da literatura grega e latina, muito embora empreguem as palavras "profetas" e "profecia", não conseguimos encontrar qualquer profecia real e especifica acerca de um grande acontecimento histórico que deveria ocorrer no futuro distante, nem qualquer profecia acerca de um Salvador que iria surgir no meio da raça humana". O Islamismo é incapaz de indicar qualquer profecia acerca da vinda de Maomé, e que tenha sido pronunciada centenas de anos antes de seu nascimento. De igual modo, os fundadores de quaisquer das seitas existentes no mundo são incapazes de identificar com precisão qualquer texto antigo que tenha predito o surgimento de tal ou tal seita.
  2. História. Nos livros bíblicos de 1ª Samuel até 2ª Crônicas encontra-se a história de Israel, cobrindo cerca de cinco séculos. Certamente o povo de Israel manifesta uma capacidade excepcional para a interpretação da história, e o Antigo Testamento representa a descrição da história mais antiga que existe. "A tradição nacional hebraica supera todas as outras na maneira clara como descreve a origem tribal e familiar. No Egito e na Babilônia, na Assíria e na Fenícia, na Grécia e em Roma, procuramos em vão por qualquer coisa parecida. Nada há de semelhante na tradição dos povos germânicos.
    A Índia e a China também não tem algo parecido para apresentar, visto que suas lembranças históricas mais antigas são registros literários de tradições dinásticas distorcidas, sem que haja menção a criadores de animais ou lavradores que tivessem antecedido o semideus ou rei, com quem esses registros iniciam. Nem nos mais antigos escritos históricos indianos (os Puranas) nem nos primeiros historiadores gregos existe qualquer alusão ao fato de que tanto os indo-arianos como os helenos outrora haviam sido nômades que, vindos do norte, imigraram para as regiões onde se instalaram. A bem da verdade, os assírios se lembravam vagamente de seus primeiros lideres, cujos nomes recordavam sem quaisquer detalhes sobre seus feitos, e que haviam habitado em tendas; mas já fazia muito tempo que os assírios tinham se esquecido de onde vieram.
    A "Tabela das Nações", de Gênesis Cap.10, é um relato histórico surpreendentemente exato. "É algo absolutamente único na literatura antiga, sem qualquer paralelo mesmo entre os gregos... 'A Tabela das Nações' permanece sendo um documento surpreendentemente exato... Revela, apesar de toda a complexidade, uma compreensão tão notavelmente moderna da situação étnica e lingüística do mundo moderno, que os estudiosos jamais deixam de ficar impressionados com o conhecimento do autor sobre o assunto.
  3. As pessoas descritas. "A Bíblia não é o tipo de livro que um homem escreveria caso pudesse, nem poderia escrever, caso quisesse". Ela trata com muita franqueza a respeito dos pecados de suas personagens. Leia as biografias escritas hoje em dia e repare como elas tentam esconder, deixar de lado ou ignorar o lado pouco recomendável das pessoas. Veja os maiores gênios da literatura: em sua maioria são descritos como santos. A Bíblia não procede dessa maneira. Ela simplesmente conta a verdade.
  4. Denunciando os pecados do povo (Deut. 9:24); e os pecados dos patriarcas (Gen.12:11-13; 49:5-7); os evangelistas descrevem suas próprias faltas e as dos apóstolos (Mat.8:10-26; 26:31-56; Mc.6:52; 8:18; Luc. 8:24, 25; 9:40-45; João 10:6; 16:32) e a desordem nas igrejas (1Cor.1:11; 15:12; 2Cor. 2:4, etc.). Muitos indagarão: "Por que tinham que colocar aquele capítulo sobre Davi e Bate-Seba"? Bem, a Bíblia tem o costume de contar a verdade.

7. Única na influência sobre a literatura
"Se todas as Bíblias de uma cidade grande fossem destruídas, seria possível restaurar o Livro em suas partes essenciais, a partir das citações dele feitas existentes nos livros da biblioteca pública municipal. Existem livros cobrindo quase todos os grandes autores literários, escritos especificamente para mostrar o quanto a Bíblia os influenciou".
O historiador Philip Schaff descreve de maneira brilhante a singularidade da Bíblia ao apresentar a singularidade do Salvador: "Esse Jesus de Nazaré, sem dinheiro nem armas, conquistou milhões de pessoas em número muito maior do que Alexandre, César, Maomé e Napoleão; sem o conhecimento e a pesquisa científica ele despejou mais luz sobre assuntos materiais e espirituais do que todos os filósofos e cientistas reunidos; sem a eloqüência aprendida nos bancos escolares, ele pronunciou palavras de vida como nunca antes, nem depois foram ditas e provocou resultados que o orador e o poeta não conseguem alcançar; sem ter escrito uma linha, ele pôs em ação mais canetas, e forneceu temas para mais sermões, discursos, livros profundos, obras de arte e música de louvor do que todo o contingente de grandes homens da antigüidade e da atualidade".
"Existem questões complexas no estudo da Bíblia, que não tem paralelo com qualquer outra ciência ou ramo do conhecimento humano. A partir dos "pais apostólicos", em 95 A.D., até à época atual corre um largo rio literário, inspirado pela Bíblia. São dicionários bíblicos, enciclopédias bíblicas, léxicos bíblicos, atlas bíblicos e livros de geografia. Pode-se considerá-los como ponto de partida. Então, aleatoriamente, podemos mencionar as enormes bibliografias nos campos de teologia, educação religiosa, hinologia, missões, línguas bíblicas, história da Igreja, biografia religiosa, devocionários, comentários, filosofia da religião, provas do cristianismo, apologética, e assim por diante, parece ser um número interminável.
"É prova da importância dEle, do efeito que Ele tem causado na história e, presumivelmente, do mistério desconcertante, provocado por Ele, que nenhuma outra pessoa que viveu neste planeta tenha sido a razão de um volume tão grande de literatura entre tão grande número de povos e línguas e que, longe de terminar, o nível da inundação continua subindo".
A Conclusão é óbvia. "A Bíblia é única. A ela, nada é comparável. A Bíblia é o primeiro livro religioso a ser levado para o espaço sideral (ela foi em forma de microfilme). É o primeiro livro lido que descreve a origem da terra (os astronautas leram Gênesis 1:1 - "No princípio criou Deus os céus e a terra").
É também um dos livros mais caros (senão o mais caro) A Bíblia Vulgata Latina de Gutenberg custa 100.000 dólares. Os russos venderam o Códice Sinaítico (uma antiga cópia da Bíblia) à Inglaterra por 510.000 dólares (em 1933). E, finalmente, o mais longo telegrama do mundo foi o Novo Testamento na Edição Revista, enviado de New York a Chicago, duas cidades norte-americanas.

 

Quem escreveu a Bíblia?

Já dissemos em nosso artigo "O que é a Bíblia?", que ela foi totalmente inspirada por Deus. Para definirmos inspiração, preferimos seguir o conceito descrito por São Tomás de Aquino:
"É a ação de Deus, movendo e dirigindo o autor na produção do livro, preservando-o de erros, de forma que é Deus o autor e o homem mero instrumento usado para escrever" (2Quodlibetales, VII,14,5)
Vemos, assim, que os livros da Bíblia foram escritos por homens movidos pela ação direta de Deus, de forma a prevenir erros, fazendo que aceitemos Deus como autor principal e o homem como autor secundário. O homem é instrumento de Deus e é movido e dirigido por Ele.
Porém, não devemos confundir inspiração com revelação: a revelação ocorre quando Deus mostra ou descobre ao homem verdades de fé; a inspiração, como vimos, é o ato de Deus mover o homem a escrever verdades de fé, assistindo e preservando seus escritos do erro.
O fato de Deus de ter inspirado homens, não significa, contudo, que tenha anulado a inteligência e a liberdade do ser humano. Sobre isso, ensina-nos o Magistério da Igreja:
"Na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que Ele próprio quisesse" (Dei Verbum, 11).
Mas por que Deus inspiraria seres humanos para elaborar a Bíblia??
Ora, Deus é nosso Criador e nos criou por amor! Inspirando alguns santos homens a escrever tais livros, deu à religião uma base divina, absolutamente correta, já que, por serem inspirados, os livros da Bíblia são a própria Palavra de Deus, em toda a sua essência e força.
Já que foram escritos por homens, de forma que podemos entender seu conteúdo, foram usadas linguagens humanas. Quase todas as Bíblias modernas trazem logo na primeira folha as três linguagens que foram usadas para compô-la: o hebraico, o aramaico e o grego. O hebraico foi usado para a redação de quase todo o Antigo Testamento; o aramaico (língua falada na Palestina na época de Jesus) foi usado para alguns pequenos trechos do Antigo Testamento e, segundo alguns estudiosos, para o original do Evangelho de Mateus; o grego comum (koiné), por fim, foi utilizado para escrever alguns poucos livros do Antigo Testamento e para todo o Novo Testamento.

 

Como são feitas as citações bíblicas?

É comum abreviarmos os nomes dos livros da Bíblia para facilitar a citação de certas passagens.

 

 

Assim, quando quisermos citar a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, basta escrever 1Ts
A seguir, informamos o capítulo. Assim, 1Ts 2 significa Primeira Epístola aos Tessalonicenses, capítulo dois. 
Para fazermos citações mais completas, usamos alguns sinais de pontuação:

 

  • A vírgula separa os versículos do capítulo. 
    Ex.: Mt 16,18 significa Evangelho segundo Mateus, capítulo 16, versículo 18.
  • O hifen apresenta uma sequência de capítulos ou versículos. 
    Ex.: At 1-2 significa Atos dos Apóstolos, capítulos 1 e 2 (integrais). 
    Ex 15,2-5 significa Livro do Êxodo, capítulo 15, versículos 2 à 5.
  • O ponto apresenta capítulos e/ou versículos citados isoladamente.
    Ex.: 1Cr 1.3 significa Primeiro Livro das Crônicas, capítulos 1 e 3. 
    Is 32,1.4.6 significa Livro do Profeta Isaías, capítulo 32, versículos 1, 4 e 6.
  • O ponto e vírgula dispõe capítulos e versículos isolados, mas pertencentes ao mesmo livro.
    Ex.: Jo 3,23-25; 6,1-4 significa Evangelho segundo João, capítulo 3, versículos de 23 à 25 e capítulo 6, versículos de 1 à 4.

 

Algumas Bíblias podem usar "s" e "ss" a seguir do número do capítulo e/ou versículo. "s" significa seguinte e "ss", seguintes. São usados para simplificar - ainda mais - a citação, respectivamente, de dois ou três capítulos e/ou versículos.
Ex.: Rm 2,5s significa Epístola aos Romanos, capítulo 2, versículos 5 e 6 (isto é, o versículo 5 e o seguinte).
Ap 6,7ss significa Livro do Apocalipse, capítulo 6, versículos de 7 à 9 (isto é, o versículo 7 e os dois seguintes).
Tg 1s significa Epístola de Tiago, capítulos 1 e 2 (isto é, o capítulo 1 e o seguinte). 
Com todas essas abreviações e sinais podemos montar e citar, de forma bem resumida, qualquer passagem Bíblica. Ex.: Lv 1,12-15.20; 3,2s; Mc 1,3ss.10; 2Cor 3-5 significa, respectivamente:
- Livro do Levítico, capítulo 1, versículos de 12 à 15 e o versículo 20; no mesmo Livro do Levítico, capítulo 3, versículos 2 e 3. 
- Evangelho segundo Marcos, capítulo 1, versículos de 3 à 5 e o versículo 10.
- Segunda Epístola aos Coríntios, capítulos de 3 à 5.

 

 

 

Como está dividida a Bíblia? Quais livros a compõem?

A Bíblia está dividida em duas grandes partes:

  1. Antigo Testamento: Que são todos os livros escritos a partir do séc. XV a.C. até o nascimento de Cristo. Contém a Lei de Deus dada a Moisés, a história do povo de Israel e suas reflexões, bem como a previsão da vinda do Messias, que se deu com a vinda de Jesus Cristo.
  2. Novo Testamento: Que são todos os livros escritos após a vinda de Jesus até o final do séc. I d.C.. Traz a vida e as obras de Jesus, a criação e a expansão da Igreja, além de documentos de formação do povo cristão.

Essas duas grandes divisões estão, ainda, subdivididas de acordo com o conteúdo dos livros. Temos assim, para o Antigo Testamento:

  1. Livros da Lei: também chamados de Pentateuco, isto é, os "cinco livros" de Moisés, que abrem a Bíblia, e falam da Criação de Deus e da formação de seu Povo Eleito: Israel.
  2. Livros Históricos: são os livros que descrevem as guerras de Israel, bem como a história de seus reinos.
  3. Livros Didáticos: ou sapienciais, apresentam a sabedoria e poesia dos hebreus.
  4. Livros Proféticos: foram escritos por profetas que pregavam o arrependimento e preparavam o povo eleito para a chegada do Messias Salvador.

enquanto que, para o Novo Testamento, temos:

  1. Livros do Evangelho: narram a vida, os ensinamentos, os milagres e a obras do Messias Jesus Cristo.
  2. Livro Histórico: apresenta a instituição e expansão da Igreja Cristã, primeiro na Palestina e, a seguir, no mundo até então conhecido.
  3. Epístolas: são as doutrinas e exortações escritas por alguns Apóstolos de Cristo e encaminhadas a comunidades ou fiéis cristãos.
  4. Livro Profético: traz a vitória de Cristo e sua Igreja sobre as forças do mal e o juízo final.

Os livros que compõem a Bíblia são 73, sendo 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. São eles:

  1. Gênese
  2. Êxodo
  3. Levítico
  4. Números
  5. Deuteronômio
  6. Josué
  7. Juízes
  8. Rute
  9. Samuel - Livro I

10.  Samuel - Livro II

11.  Reis - Livro I

12.  Reis - Livro II

13.  Crônicas - Livro I

14.  Crônicas - Livro II

15.  Esdras

16.  Neemias

17.  Tobias

18.  Judite

19.  Ester

20.  Macabeus - Livro I

21.  Macabeus - Livro II

22.  Jó

23.  Salmos

24.  Provérbios

25.  Eclesiastes

26.  Cântico dos Cânticos

27.  Sabedoria

28.  Eclesiástico

29.  Isaías

30.  Jeremias

31.  Lamentações de Jeremias

32.  Baruc

33.  Ezequiel

34.  Daniel

35.  Oséias

36.  Joel

37.  Amós

38.  Abdias

39.  Jonas

40.  Miquéias

41.  Naum

42.  Habacuc

43.  Sofonias

44.  Ageu

45.  Zacarias

46.  Malaquias

47.  Evangelho de Mateus

48.  Evangelho de Marcos

49.  Evangelho de Lucas

50.  Evangelho de João

51.  Atos dos Apóstolos

52.  Epístola aos Romanos

53.  1ª Epístola aos Coríntios

54.  2ª Epístola aos Coríntios

55.  Epístola aos Gálatas

56.  Epístola aos Efésios

57.  Epístola aos Filipenses

58.  Epístola aos Colossenses

59.  1ª Epístola aos Tessalonicenses

60.  2ª Epístola aos Tessalonicenses

61.  1ª Epístola a Timóteo

62.  2ª Epístola a Timóteo

63.  Epístola a Tito

64.  Epístola a Filemôn

65.  Epístola aos Hebreus

66.  Epístola de Tiago

67.  1ª Epístola de Pedro

68.  2ª Epístola de Pedro

69.  1ª Epístola de João

70.  2ª Epístola de João

71.  3ª Epístola de João

72.  Epístola de Judas

73.  Apocalipse de João

 

Como ler com proveito a Bíblia?

  • Dedique um tempo diário para estudar e meditar a Bíblia: pode ser pela manhã, logo após acordar; ou, depois do almoço ou da janta; ou antes de dormir; ou, ainda, qualquer outro horário que se adapte ao seu tempo livre. A quantidade de tempo também pode ser livremente estabelecida: 10, 30, 60 minutos ou mais. Quanto mais tempo você tiver, melhor! Porém, divida o tempo total para as duas atividades que devem ser feitas: leitura e estudo. O ideal é dividir na ordem de 1/3 e 2/3, respectivamente. Assim, se você resolver dedicar 15 minutos diários, use 5 minutos para leitura e 10 minutos para o estudo.
  • Após estabelecer o horário que melhor o satisfaça, cumpra-o rigorosamente, não esquecendo nem adiando nenhum dia, mesmo que se sinta cansado. Lembre-se: devemos amar a Deus sobre todas as coisas!
  • Se você não tiver uma Bíblia, adquira uma. Compre, entretanto, em livrarias católicas pois as versões comercializadas por livrarias evangélicas são incompletas quanto ao Antigo Testamento (faltam 7 livros e alguns trechos de Ester e Daniel). Existem Bíblias com uma linguagem mais simples (ex.: "Bíblia Ave Maria") e outras mais técnicas (ex: "Bíblia de Jerusalém"); leve aquela que esteja dentro da sua linguagem e das suas condições. Além disso, compre um caderno e também um comentário bíblico. As editoras católicas disponibilizam diversos comentários, dos mais simples aos mais completos. Folheie-os com calma e encontre um que atenda seus requisitos de linguagem e complexidade.
  • Adquirido o material e chegada a hora do estudo, com a Bíblia nas mãos, inicie com uma oração ao Espírito Santo, pedindo para que o ilumine. Pode ser a seguinte ou uma outra semelhante e espontânea:
    "Espírito Santo: Tu inspiraste estas palavras. Ilumina a minha mente para que eu possa compreendê-las. Vem, Espírito Santo, ilumina o meu coração e o meu entendimento. Ajuda-me a reconhecer a Verdade eterna que preciso para agradar a Deus. Amém."
  • Selecione a leitura. Há várias formas de se fazer isto... Você pode seguir a sugestão da Igreja e ler as leituras selecionadas para o tempo litúrgico em que estiver (algumas Bíblias trazem essa seleção de textos em apêndice no final do volume; caso sua Bíblia não possua essa indicação, imprima as páginas das Leituras Dominicas e Semanais que disponibilizamos neste Site) ou ler a Bíblia na forma sequencial, a partir do primeiro livro (neste caso, particularmente sugiro que se inicie pelo Novo Testamento - por ser mais dinâmico - para só depois se passar para o Antigo Testamento).
  • Leia com atenção - sem pressa e meditativamente - cada versículo. Não se incomode de precisar voltar a ler alguma passagem não muito clara. Releia todo o texto mais uma ou duas vezes, pois sempre acabamos percebendo algo que deixamos escapar na leitura anterior...
  • Identifique-se com os personagens em cada cena. Se estiver lendo os Evangelhos, coloque-se no lugar do sofredor Lázaro, no lugar de Mateus convidando Jesus para uma refeição... Considere tudo o que Jesus fala como diretamente dirigido a você. Ao ler as epístolas, além da voz do Apóstolo e do Espírito Santo, reconheça a voz da Igreja, exortando-o a aumentar e amadurecer a fé.
  • Termine a leitura também com uma oração ao Espírito Santo, como, por exemplo: "Fala, Senhor: teu servo está te ouvindo. Aqui estou, Senhor!", ou "Senhor: aqui estamos, Tu e eu, juntos agora. Fala-me, pois eu te escuto!". Faça, então, um breve silêncio.
  • Inicie o estudo lendo com calma e atenção o comentário sobre o texto lido. Leia também todas as notas de rodapé existentes na sua Bíblia: elas são importantes principalmente para os pontos mais obscuros.
  • Prossiga o estudo tomando nota das passagens que mais o tocam. Neste ponto, sugiro que se utilize o método do pe. Jonas Abib, dividindo as citações em cinco pontos:
  1. Promessas: é tudo aquilo que Deus promete àqueles que cumprem (ouvem e praticam) a Sua Palavra. São promessas em que podemos seguramente confiar. Ex.: "Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou no meio deles" (Mt 18,20); v.tb.: Jo 1,12; Lc 11,13; Ef 6,8.
  2. Ordens: são os mandamentos que devemos obedecer durante a nossa vida, onde demonstramos a nossa fidelidade a Deus. Ex.: "Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado" (Jo 13,34); v.tb.: Mt 5,37; Mc 16,15; Lc 6,27-28.
  3. Princípios Eternos: são as leis que regem o Reino de Deus e não devem ser confundidos com as ordens. São os segredos do funcionamento do Reino. Ex.: "Para os puros, todas as coisas são puras. Para os corruptos e descrentes, nada é puro; até sua mente e consciência são corrompidas" (Tt 1,15); v.tb.: Lc 6,36; 18,14; 1Tm 6,7.
  4. Mensagem de Deus para Hoje: certamente Deus tem uma mensagem para você. Faça de maneira pessoal, com suas próprias palavras.
  5. Como Aplicar a Leitura na Vida: é a parte mais pessoal e mais concreta. Anote e coloque em prática tudo o que descobrir. É a maneira decisiva para mudar o comportamento (ser e agir) e o relacionamento com Deus.

 

  • Para terminar o estudo, releia o comentário bíblico e as suas anotações. Observe, então, a incrível unidade que existe entre eles. Se você quiser - e é altamente recomendado!! - tente relembrar a leitura do dia anterior; se possível, memorize o versículo principal, o núcleo da mensagem.
  • Termine o seu "dever de casa" com uma oração espontânea agradecendo a Deus pelas descobertas do dia e certo de ter aumentado a sua intimidade com Ele. Lembre-se sempre: Não caia no erro de querer ler somente a Bíblia sem a ajuda da Igreja, achando que pode interpretá-la de forma particular. Essa tese é protestante e anti-bíblica. Foi por causa disso que o sectarismo se instalou no mundo cristão, existindo hoje mais de 20.000 denominações - todas elas com mensagens "muito particulares" e distintas umas das outras.

 

A Bíblia não erra

1. MENTALIDADE HEBRAICA E LINGUAGEM BÍBLICA

Vamos, pois estudar inícialmente um pouco da mentalidade dos judeus e do seu jeito de se exprimir.

No salmo 62, versículo 6, lemos: "Minha alma será saciada de gordura e de tutano, de meus lábios alegres ressoará o teu louvor". Nós poderíamos dizer: O que é isso? A alma não come! É verdade. Mas, para o judeu, um bom almoço era aquele com muita carne gorda. Um bom almoço alegra. Por isso o salmista, em vez de dizer: "Minha alma estará feliz junto de Deus", diz: "Junto de Deus minha alma será alimentada com carnes gordas e tutano". Pode não parecer piedoso. Mas assim é que rezavam.

No salmo 118,109, encontramos: "Minha vida está sempre em minhas mãos". Ter alguma coisa nas mãos, é estar pronto a entregar, a perder. "Ter a vida nas mãos" queria dizer: estou pronto a perder a minha vida, estou quase morrendo, estou em grande perigo.

Com a mão pegamos as coisas, tomamos posse. Em vez de dizer que alguém era rico, os judeus diziam: "ele tem a mão grande". Quem era pobre ou avarento "tinha as mãos pequenas".

Esses exemplos bastam para mostrar como os judeus usavam uma linguagem muito concreta, quase sem termos abstratos. Aliás, hoje ainda usamos linguagem semelhante. Se alguém nos diz que "está na fossa", "foi para o brejo", "foi para o buraco", entendemos logo o que quer dizer e não perguntamos qual a fundura do buraco nem onde é o brejo.

Como os orientais em geral, os judeus gostavam de falar de um modo teatral. Assim, sem muitas explicações, a idéia se tornava clara, quase palpável. Usavam expressões que, analisadas friamente, são exageros. Um rei, para dizer que seu exército era numeroso, dizia que a poeira da Samaria não seria bastante para encher as mãos de seus soldados (1º Livro dos Reis 20,10). Em vez de dizer: "houve fome em muitos países", diziam: "houve fome na terra inteira". Há uma passagem do Evangelho (Lc 14,26) em que Jesus diz: "Quem não odiar pai, mãe... não pode ser meu discípulo". Odiar, no caso, significa amar menos do que ao Cristo.

A língua hebraica não tinha os mesmos recursos das línguas modernas. Nós temos palavras que indicam claramente a comparação entre os termos. Nós dizemos claramente: "É maior o número dos chamados e menor o número dos escolhidos". "Deus quer mais a misericórdia do que o sacrifício". Os judeus diziam: "Muitos são os chamados e poucos os escolhidos" (Mt 22,14). "Quero a misericórdia e não o sacrifício" (Mt 9,13).

Usavam comparações e imaqens que não podem ser tomadas ao pé da letra. As idéias abstratas estavam ligadas a coisas materiais. Por exemplo:

  • Fraqueza: carne, cinza, poeira, flor que murcha, cera derretida.
  • Força: montanha, rochedo, bronze, tempestade, exército.
  • Glória: luz, brilho, relâmpago.
  • Fartura: leite, mel, água, azeite.

Esse modo concreto de pensar e de falar é que levava os judeus a falarem das coisas e de Deus usando expressões que realmente só de aplicam aos homens. Por exemplo:

  • As cisternas, os montes, as árvores devem bater palmas e gritar de alegria;
  • O sangue inocente pede vingança divina;
  • Deus tem rosto, nariz, ouvidos, boca, lábios, olhos, voz, braços, mãos e pés. Está revestido de um manto, senta-se num trono de rei. Tem desgosto, ódio, sentimentos de agrado, alegria, arrependimento. Tem até um nome próprio.

Na linguagem da Bíblia os números não têm a mesma importância nem o mesmo significado que têm para nós. Quando damos um número, procuramos ser matematicamente exatos; interessa-nos a quantidade real. Para os judeus os números tinham todo um significado simbólico, indicava o sentido dos acontecimentos ou as qualidades das pessoas. A idade dos patriarcas, cem ou mais anos, não era contada em razão dos anos realmente vividos, mas em razão da veneração que mereciam, do quanto eram queridos por Deus. No capítulo quinto do Gênesis encontramos uma série de dez gerações desde Adão até o patriarca Noé. Dez era apenas o número que indicava uma série completa e final. Falando de dez patriarcas, o hagiógrafo queria abarcar todos os acontecimentos, todas as gerações entre Adão e Noé, fossem lá quais e quantos fossem. Não estava, de modo algum, querendo ensinar que de fato tinha havido apenas uma série de dez gerações. De modo semelhante Jesus fala das "dez virgens"; S. Paulo menciona os "dez adversários" que nos tentam separar do Cristo (Rom 8,38s), e os "dez vícios" que nos podem excluir do Reino de Deus (1Cor 6,9s). Os meses do ano são doze. Por isso esse número também significava a perfeição, a totalidade.

Quando damos um número, estamos de fato excluindo qualquer quantidade maior ou menor, a não ser que digamos claramente o contrário. Os judeus indicavam o número que interessava no momento. Podemos dar alguns exemplos: Mc 11,2; Lc 19,30; Jo 12,14, dizem que Jesus entrou em Jerusalém montado em um jumento. Mt 21,2 fala, porém, de uma jumenta e de um jumentinho. Mc 10,46 diz que, ao sair de Jericó, Jesus curou um cego; Mt 20,30, diz que dois foram os cegos curados. Além do mais, precisamos ainda lembrar que muitas vezes houve engano dos copistas na transcrição dos números. Engano fácil de entender já que os números eram representados com letras do alfabeto, bastante parecidas entre si.

Bastam esses exemplos para percebermos o cuidado necessário para termos uma correta compreensão dos textos bíblicos.

2. GÊNEROS LITERÁRIOS

Há ainda um outro fator que devemos levar em conta: o gênero literário, isto é, o tipo de com posição que temos diante de nós. Isso vai determinar o sentido e o alcance que lhe podemos dar.

Se você ouve alguém contar uma história para crianças, uma dessas histórias em que os animais falam, aparecem fadas e bruxas, você não vai entender essa história do mesmo modo como entende as palavras de alguém que lhe está contando um fato real. Há muita diferença entre uma poesia, ou a letra de uma canção, e um trecho de um livro de ciências. Uma carta é bem diferente de uma reportagem ou uma notícia no jornal. Um discurso político não é a mesma coisa que um sermão. Aí estão exemplos de alguns "gêneros literários".

A poesia, a anedota, a narrativa histórica, cada gênero literário afinal tem suas regras próprias de composição. Tem a sua linguagem própria, suas palavras apropriadas, seu estilo. Escrevemos ou falamos de um jeito quando queremos ensinar; de outro, quando queremos divertir, ou agradar, ou informar, ou amedrontar, e assim por diante.

E mais. Cada "gênero literário" olha para a realidade de um lado diferente. Alguns, querem apresentar um fato real, enquanto outros falam de fatos imaginários. Alguns podem aprofundar o assunto até aos mínimos detalhes, outros ficam só em generalidades. E podemos ainda notar que essas formas de expressao variam conforme o povo, o tempo e o lugar.

Também na Bíblia podemos encontrar muitos gêneros literários bem característicos. Há narrativas, históricas ou não, há poesia, parábola, alegoria, profecia. apocalipse. E temos que levar isso em conta ou, então, vamos interpretar mal o que foi escrito. O que lemos no Apocalipse ou nos Profetas não pode ser compreendido do mesmo modo como se estivéssemos lendo os Evangelhos. Vamos entender mal as Epístolas de S. Paulo se esquecermos que são cartas, escritas em circunstâncias bem concretas. Precisamos conhecer e levar em conta as regras próprias de cada gênero literário para não lermos o que não foi pensado nem escrito pelos autores da Bíblia.

3. A BÍBLIA E A HISTÓRIA

Lendo a Bíblia encontramos narrativas que nos levam a perguntar: - Isso aconteceu mesmo? Tanto mais que, muitas vezes, os dados fornecidos parecem não coincidir com o que atualmente conhecemos da História do antigo oriente.

No livro de Daniel, por exemplo, está escrito que o rei Baltasar da Babilônia era filho de Nabucodonosor. Ora, pelos documentos babilônicos, conservados em tabuinhas de argila, sabemos que Baltasar era de fato filho de Nabonide, quarto sucessor de Nabucodonosor. E o livro de Jonas, será que quer apresentar um fato histórico, ou seria apenas uma narrativa com finalidade edificante? A mesma pergunta podemos levantar quanto aos livros de Jó, de Judite, de Tobias e outros.

Não vem ao caso um exame detalhado de todos os problemas que se apresentam. Vamos ver apenas alguns princípios que nos aludem a compreender o modelo literário de História usado em algumas partes da Escritura.

Em primeiro lugar é preciso saber que a Bíblia se interessa pela História na medida em que os acontecimentos têm uma importância religiosa. O que interessa ao hagiógrafo é apresentar o que Deus fez pela salvação dos homens e qual a resposta que os indivíduos, o povo e a humanidade deram à proposta divina. São mencionados, por isso, apenas os fatos realmente significativos sob esse aspecto. E mesmo esses fatos são narrados de forma a dar relevo ao seu significado religioso. Dados de menor importância são omitidos ou apresentados de um modo aproximativo, sem que se procure a exatidâo que estamos acostumados a encontrar na História cientificamente escrita.

Não podemos, porém, esquecer que a Bíblia se apresenta como o relato do que Deus realmente fez para a nossa salvação. Não quer apresentar lendas e mitos. Afirma fatos: e a fé cristã é possível somente se aceitamos a realidade desses fatos fundamentais.

Por outro lado, é bom lembrar que as descobertas arqueológicas dos últimos tempos vêm confirmando dados até agora conhecidos apenas através das informações bíblicas. O que nos dá, mesmo do ponto de vista da ciência histórica, uma garantia bastante grande pelo menos quando a exatidão dos fatos centrais.

Finalmente, há na Bíblia muitas narrativas que não precisam nem podem ser tomadas como apresentação de fatos realmente acontecidos. São "histórias" contadas com a finalidade de ensinar, exortar, animar.

Concluindo: A Bíblia não erra nem pode errar quando o hagiógrafo quer de fato apresentar o que realmente aconteceu. Nem tão pouco pode errar ao nos dar o sentido, a significação religiosa dos fatos.

4. A BÍBLIA E A CIÊNCIA

A nossa visão atual do mundo, dos seres vivos e da humanidade é muito diferente da que encontramos na Bíblia. Essa nossa visão é formada por conhecimentos certos, adquiridos através das descobertas científicas, ou se baseia em hipóteses, tentativas de explicação coerente para os fenómenos que ainda não chegamos a compreender perfeitamente. Na Bíblia, encontramos uma concepção do mundo bastante poética e ao mesmo tempo simplista. A terra era considerada como uma grande planície, cercada de altas montanhas (onde moravam o sol e a lua). Sobre essas montanhas, como se fossem imensos pilares, estaria apoiado o céu, imaginado como imensa cúpula de cristal onde estariam incrustadas as estrelas. A terra estaria flutuando sobre o mar imenso, sob o qual estava a habitação dos mortos. Acima dos céus, havia o grande mar superior, e mais alto ainda o céu, habitação de Deus. A origem do mundo e da humanidade era imaginada como acontecimento bem recente. A uma palavra de Deus a criação teria surgido como um todo perfeito e definitivo. Os fenômenos naturais (ventos, raios, chuvas) eram atribuidos a uma intervenção direta de Deus. As doenças, eram causadas por forças misteriosas. Baste isso para nos fazer compreender a dificuldade de alguns em conciliar as afirmações da Bíblia com os dados científicos agora conhecidos.

Houve tempo em que se tomaram atitudes extremas. Alguns, partindo dos conhecimentos atuais, viam a Bíblia cheia de erros e tentavam explicar tudo, até os milagres, de um modo natural. Outros tentavam colocar a Bíblia como critério para o nosso conhecimento científico da natureza; ou, então, queriam a todo o custo fazer uma acomodação entre suas afirmações e as da ciéncia. Tentativas que não serviam nem à verdade da Biblia nem à verdade da ciência.

Para evitar mal-entendidos podemos seguir estes princípios:

  1. A Escritura não quer ensinar "ciência". Quer apresentar-nos Deus, suas obras e seus planos para a nossa salvação. Como dizia um escritor antigo: "A Escritura ensina-nos como ir ao céu e não como vai indo o céu". É claro, porém, que falando sobre Deus e suas obras, a Bíblia faz afirmaçôes que têm conseqüências para a ciência. Por exemplo, quando afirma que tudo quanto existe não surgiu por si mesmo mas foi criado por livre decisão de Deus.
  2. A Bíblia, quando fala dos fenômenos e realidades da natureza, fala ao modo do povo, fala segundo as aparências: o sol que nasce e se põe etc. E muitas vezes os hagiógrafos usam uma linguagem poética que personifica as forças da natureza.


5. A BÍBLIA E A MORAL

Quem lê o Antigo Testamento poderia ficar chocado com certos costumes, mais ou menos tolerados, ou com certos episódios mais ou menos escabrosos. Como é possível isso num livro escrito sob a inspiração divina?
A Bíblia fala sobre o homem. Fala, pois, do que há de bom e mau, mesmo em homens que deviam desempenhar um importante papel nos planos de Deus. Não simplesmente para falar do mal, nem muito menos para o ensinar. Quer mostrar até que ponto pode chegar a fraqueza humana, quer ensinar-nos a evitar todo pecado. Justamente essa presença do mal nos mostra como Deus foi pacientemente educando a humanidade para que pudesse afinal aceitar e viver o Evangelho de Cristo. Não impunha exigências maiores do que as assimiláveis por homens ainda presos a uma situação precária. Não estava interessado apenas em fazer cumprir um código moral; queria levar as pessoas a um crescimento interior. Sabia esperar o momento de mandar o seu Cristo que, diante das tolerâncias da lei antiga, iria anunciar: "...eu, porém, vos digo...!"
Neste ponto podemos concluir:

A Biblia não erra nem pode errar em nenhuma das afirmações que Deus e o hagiágrafo quiseram de fato fazer e no sentido em que a fizeram.

 

 

 

A Bíblia mal utilizada

Conseqüências de um princípio funesto: a Sola Scriptura

"Então o Diabo lhe disse: 'Se és o filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito..." (Mateus 4,5).
A Sagrada Escritura é uma lâmpada que ilumina o nosso caminho para a Casa do Pai (Salmo 119,105), porém, quando mal utilizada, pode nos levar a danos físicos e morais e até mesmo à perdição eterna. O próprio Diabo se valeu desta técnica para inutilmente tentar derrubar Jesus.
O profeta Amós anunciou (8,11): "Chegará o dia em que Deus mandará fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a Palavra de YHWH" . Como esta fome de ouvir a Palavra de Deus é inerente à natureza humana, que deseja conhecer o seu Criador, devemos, nesta busca, estar atentos às infinidades de doutrinas errôneas inventadas pelo homem, que tenta baseá-las na Bíblia mal-interpretada. Já o apóstolo Pedro advertia em 2Pedro 3,16, que haveria quem viesse a torcer o seu ensino para sua própria perdição.
Alguém disse: "Da Bíblia mal-intepretada pode se extrair até petróleo"...
Joseph Smith, fundador dos mórmons, baseando-se na ordem divina de Gênese 1,22 e 35,11 ("crescei e multiplicai-vos"), aprovou a poligamia.
Joseph F. Rutherford, 2º líder mundial dos Testemunhas de Jeová, apoiou a já conhecida recusa às transfusões de sangue, que tantas mortes causou entre eles, a partir do texto de Atos 15,20, quando a Igreja proclamou uma ordem transitória e circunstancial de vir a abster-se do sangue.
Os líderes dos Adventistas do 7º Dia, utilizando Êxodo-20,8 ("recorda-te do dia de sábado para santificá-lo"), obrigam os seus adeptos a observá-lo como faziam os judeus do Antigo Testamento e rejeitam o domingo, o "Dia do Senhor", próprio dos cristãos.
Os cristãos fundamentalistas (Igreja da Fé em Cristo Jesus e outras da mesma linha doutrinária), lendo Atos 8,16 ("unicamente tendo sido batizados em nome do Senhor Jesus"), dizem que os cristãos devem ser batizados apenas em nome de Jesus e não no nome das Três Pessoas da Santíssima Trindade, muito embora esta seja a ordem expressa de Cristo em Mateus 28,19.
A grande maioria das Igrejas Cristãs Evangélicas, citando Romanos 3,28 ("concluímos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei"), proclama que a justificação (salvação) é obtida somente pela fé sem obras, em oposição ao que diz Tiago 2,26.
Entre os pentecostais, têm surgido casos de pessoas virem à falecer - principalmente crianças - em razão de seus pais não recorrerem ao médico para tratar das suas doenças, já que crêem que, segundo Lucas 8,48, tudo pode ser curado apenas pela fé e as orações. No entanto, os judeus - o povo da Bíblia - recorriam aos médicos (Eclesiástico 39); e entre os apóstolos, havia um médico eminente: São Lucas (Colossenses 4,14).
Em San Luis Potosi, numa comunidade de pessoas que seguia esta linha doutrinária, algumas morreram ao inalar gas butano. O pastor lhes dizia que se tratava da ação do Espírito Santo (Heraldo de Chih, 1° de janeiro de 1992).
Os seguidores da urinoterapia (=beber da própria urina), justificam esta prática no texto de Provérbios 5,15 ("toma a água da tua própria fonte")!
As práticas mais absurdas podem ter apoio na Bíblia mal-interpretada; citar todas seria interminável. Para evitarmos ser vítimas destes e de outros danos tão terríveis, leiamos a Sagrada Escritura sempre seguindo a interpretação do Magistério da Igreja Católica, a quem Jesus conferiu esse ministério (Lucas 10,16) e não o que é proclamado à margem deste.

 

A Bíblia é infalível?

O conceito de inspiração implica na inerrância bíblica, em sua infalibilidade. No entanto, devemos compreender a extensão dessa infalibilidade...
Todas as coisas possuem limites: não é diferente para a Bíblia!
Não poucas vezes, nos defrontamos com pessoas que querem "provar" a todo custo que a Bíblia está cheia de erros científicos, não possui harmonia entre seus vários livros, cai diversas vezes em contradição e tem diversas passagens lendárias. E chegam a exemplificar:

  • Ao abandonar seus pais, com quem Caim se casou, já que não havia mulheres filhas de Adão e Eva? (Gn 4,17);
  • Quantos soldados havia em Israel e em Judá? 800 mil e 500 mil, respectivamente, segundo 2Sm 24 ou 1100 e 470 mil, respectivamente, segundo 1Cr 21?;
  • Mateus atribui ao profeta Jeremias uma profecia de Zacarias (Mt 27,9);
  • Judas se suicidou por enforcamento (Mt 27,5) ou por pular em um precipício (At 1,18)?

e os exemplos se multiplicam...

Tais argumentos fazem aparecer pessoas "iluminadas" que, crendo na total infalibilidade da Bíblia, encontram respostas inúteis, tais como defender que Judas se enforcou numa árvore próxima de um abismo, tendo caído neste assim que a corda se rompeu!!! Da mesma forma, Galileu Galilei quase foi queimado pela Inquisição por defender que a terra girava em torno do sol e não o contrário, como todos até então acreditavam; isso porque parecia contradizer a passagem de Js 10,12-13, que afirma que o sol parou por ordem de Josué.
Vemos, assim, que tais discussões são inúteis e extremadas! Tudo por causa do conceito de inerrância ou infalibilidade da Bíblia que não é visto de acordo com a verdade. E qual é a verdade? É que a Bíblia é um livro de fé e não um livro de ciências! É infalível para doutrinas da religião, mas não o é para a ciência.
Deus, quando inspirou os homens que escreveram a Bíblia, esmerou-se por se fazer entender pela humanidade e, para isso, comunicou as verdades da fé usando a linguagem simples da época, que ainda era muito pobre em conhecimentos científicos. Mas não poderia ser diferente! Se Jesus falasse de computadores, aviões e televisão em suas parábolas seria entendido por aquele povo? Haveria o Cristianismo hoje se seus apóstolos pregassem algo que não conhecessem???
Para nós que cremos em Deus, não interessa saber se a ordem da Criação está certa ou errada, se a princípio foi criado somente um casal de cada espécie ou não... para nós, o que nos interessa mesmo é saber - e ter a certeza - de que Deus criou tudo no universo: os astros, as estrelas, a terra, os animais e o gênero humano; interessa-nos saber que Deus nos ama, apesar de termos pecado contra Ele (pouco importando se foi porque comemos o fruto de uma árvore, mas porque de alguma forma o desobedecemos). Devemos saber que, por Seu Amor, Deus nos mandou seu Filho único, verdadeiro Deus feito homem, que nos libertou de uma vez por todas do pecado e nos alcançou a salvação... e por aí vai.
Concluímos afirmando que a Bíblia é, portanto, infalível nos assuntos de fé, como sempre foi e sempre será, não devendo invadir o campo da ciência, da mesma forma como esta também não deve se intrometer nos assuntos de fé, para os quais permanece incompetente.

 

A Bíblia ou a Tradição?

Um argumento pouco bíblico

Os reformadores protestantes diziam que a Bíblia era a única fonte das verdades da fé e que, para entender sua mensagem, dever-se-ia tão somente ler as palavras do texto. É o que se chama de "teoria protestante da sola scriptura" ou, em português, "somente a Bíblia". Segundo esta teoria, nenhuma autoridade fora da Bíblia pode impor uma interpretação e nenhuma instituição extrabíblica - por exemplo, a Igreja - foi estabelecida por Jesus Cristo para fazer as vezes de árbitra em caso de conflitos de interpretação.
Como bons herdeiros dos reformadores, as seitas fundamentalistas trabalham sobre a base desta teoria e não perdem oportunidade para demonstrar seu princípio que, por outro lado, pareceria ser sua arma mais poderosa, algo que eles aceitam como o fundamento indiscutível dos seus pontos de vista.
Contudo, não existe coisa mais difícil no diálogo com os fundamentalistas que fazê-los provar o porquê crêem no princípio do "somente a Bíblia", separada de qualquer outra fonte de autoridade, e que esta (a Bíblia) seja suficiente nas questões de fé. A questão se resume em saber qual o motivo que faz um fundamentalista crer que a Bíblia seja um livro inspirado, já que é óbvio que ela pode tornar-se regra de fé apenas no caso de se comprovar sua inspiração e, também, sua inerrância.
Claro que essa questão não preocupa por demais a maioria dos cristãos e, certamente, são poucos os que tenham se atentado para isto alguma vez. Em geral, se crê na Bíblia porque é o livro aceito por todos os cristãos, cuja autoridade não se discute, eis que ainda vivemos em tempos em que os princípios cristãos têm influência na cultura e no modo de vida da maioria das pessoas.
Um cristão humilde, que não daria a mínima credibilidade para o Alcorão, pensaria duas vezes antes de falar mal da Bíblia, já que esta goza de certo prestígio, mesmo quando não pudesse explicá-la ou entendê-la bem. Poderia dizer-se que essa pessoa aceita a Bíblia como inspirada - qualquer que seja seu entendimento quanto à inspiração - por razões de tipo cultural, razões que, sem dúvida, são de escasso ou nenhum valor, já que pelas mesmas razões o Alcorão é tido por inspirado em países de cultura muçulmana.

"PARA MIM, É MOTIVO SUFICIENTE"

Diga-se o mesmo perante quem sustenta que a família pela qual veio ao mundo sempre considerou a Bíblia como livro inspirado e "para mim, isso basta". Seria um bom motivo somente para aquele que não pode fazer um trabalho de reflexão sério (e não devemos nunca desprezar uma fé simples, sustentada sobre fundamentos bem mais débeis). Porém, seja como for, o mero costume familiar ou local não pode estabelecer-se como base para a crença na inspiração divina da Sagrada Escritura.
Alguns sectários dizem que a Bíblia é um livro inspirado porque "é um livro que inspira". Porém, a palavra "inspiração" é precisamente o que se quer provar e observemos que há muitos escritos religiosos antigos que certamente são muito mais "inspirativos" ou "emotivos" do que muitos textos e até livros inteiros do Antigo Testamento. Não é falta de respeito afirmar que certas passagens dos escritos sagrados são tão secos quanto as estatísticas militares... e algumas partes da Bíblia (Antigo Testamento) são compostas realmente por isso: estatísticas militares!
Por isso, concluímos que não é suficiente crer na Sagrada Escritura por motivos culturais ou de costume, nem tampouco por seus textos emotivos ou sua beleza espiritual: há outros livros, alguns totalmente mundanos, que ultrapassam em beleza poética muitas passagens da Escritura.

QUE DIZ A BÍBLIA DE SI MESMA?

E que dizer do que a própria Bíblia ensina sobre sua inspiração? Notemos que são muito poucas as passagens onde a própria Bíblia ensina sua inspiração - mesmo que de modo indireto - e a maioria dos livros do Antigo e do Novo Testamento não dizem absolutamente nada sobre sua particular inspiração. De fato, nenhum autor dos livros do Novo Testamento diz estar escrevendo sob o impulso do Espírito Santo, exceto São João, ao escrever o Apocalipse.
Ademais, ainda que cada livro da Bíblia começasse com a frase: "Este livro é inspirado por Deus", semelhante frase não provaria nada: o Alcorão diz ser inspirado, assim como o Livro do Mórmon e vários livros de algumas religiões orientais. Mais: os livros de Mary Baker Eddy (a fundadora da Ciência Cristã) e de Ellen G. White (fundadora do Adventismo do Sétimo Dia) se auto-proclamam inspirados. Pode-se concluir - com grande senso comum - que o fato de um escrito atribuir a si qualidades de inspiração divina não quer dizer que assim o seja na realidade.
Ao dizer estes argumentos, muitos fundamentalistas recuam e nos afirmam que "o Espírito Santo me diz claramente que a Bíblia é inspirada", uma noção bastante subjetiva - para se dizer o mínimo - muito semelhante com aquela outra, tão comum entre os sectários, de que "o Espírito Santo os guia para interpretar as Escrituras". É, assim, que o autor anônimo do artigo "Como posso compreender a Bíblia?", um folheto distribuído pela organização evangélica "Radio Bible Class", apresenta doze regras para o estudo da Bíblia. A primeira é: "Busca a ajuda do Espírito Santo. O Espírito Santo foi dado para iluminar as Escrituras e fazê-las reviver para ti quando a estudas; deixa Ele te guiar".
Se com esta regra se entende que qualquer pessoa que pedir a Deus para o guiar na interpretação da Bíblia receberá essa condução do alto - e neste sentido entendem a maioria dos fundamentalistas - então o imenso número de interpretações contrárias e contraditórias, mesmo entre os próprios fundamentalistas, nos apresentaria a preocupante sensação de que o Espírito Santo não tem trabalhado direito...

NÃO COM SILOGISMOS

Grande parte dos fundamentalistas não dizem diretamente que o Espírito Santo lhes falou, assegurando-lhes que a Bíblia é um livro inspirado. Ao menos, não falam desse modo. Melhor, agem assim: ao ler a Bíblia, o Espírito "os convencem" que essa é a Palavra de Deus, recebem certa sensação interior de que é uma palavra divina e ponto.
De qualquer modo que se veja, a postura fundamentalista não resiste a um raciocínio sério. Conta-se nos dedos de uma mão os fundamentalistas que num primeiro momento se aproximaram da Bíblia como um livro "neutro" e, após sua leitura, a reconheceram como inspirado, segundo um raciocínio lógico. De fato, os fundamentalistas começam pressupondo o fato da inspiração - tal como recebem outras doutrinas das suas seitas - sem raciocinar sobre elas e, então, encontram partes da Sagrada Escritura que parecem fundamentar a inspiração, caindo assim num círculo vicioso, confirmando com a Bíblia o que eles já acreditavam de antemão.
A pessoa que quer refletir seriamente sobre o tema se defraudará com a posição fundamentalista da inspiração bíblica, percebendo que esta não possui uma base sólida para manter tal teoria. A posição católica é a única que, no final, pode dar uma resposta intelectualmente satisfatória.
A maneira católica de raciocinar, para demonstrar que a Bíblia é inspirada, é a seguinte: em um primeiro passo, consideramos a Bíblia como qualquer outro livro histórico, sem presumir que seja inspirado. Estudando o texto bíblico com os instrumentos da ciência moderna, chegamos à conclusão de que se trata de uma obra confiável, de grande precisão histórica, sendo que referida precisão ultrapassa em muito a de qualquer outro texto histórico.

UM TEXTO PRECISO

Frederic Kenyon, em "A História da Bíblia", faz notar o seguinte: "Para todas as obras da antigüidade clássica, nos vemos obrigados a nos socorrer de manuscritos redigidos muito depois do original. O autor que leva vantagem neste sentido é Virgílio, visto que o manuscrito mais antigo que dele possuímos foi escrito 350 anos depois da sua morte. Para todas as demais obras clássicas, o intervalo que existe entre a data do escrito original e a do manuscrito mais antigo que dele se conserva é muito maior: para Lívio, é de uns 500 anos; para Horácio, 900; para a maioria das obras de Platão, 1300; para Eurípedes, 1600". Mesmo assim, ninguém pode seriamente duvidar de que realmente possuímos cópias fiéis das obras desses autores.
Não somente possuímos manuscritos bíblicos mais próximos aos originais que os da antigüidade clássica, como também possuímos um número muito maior que aqueles. Alguns destes manuscritos são livros inteiros; outros são fragmentos; outros, tão somente algumas palavras; mas todos eles juntos somam milhares de manuscritos em hebraico, grego, latim, copta, siríaco e outras línguas. Tudo isso significa que possuímos um texto rigorosamente fiel, que pode ser usado com toda confiança.

TOMADO HISTORICAMENTE

Em um segundo momento, dirigimos nossa atenção para o que a Bíblia - considerada somente como um livro histórico - nos ensina, particularmente no Novo Testamento e nos Evangelhos. Examinemos o relato da vida de Jesus, sua morte e sua ressurreição.
Usando o que nos transmitem os Evangelhos, o que lemos em outros escritos extrabíblicos dos primeiros séculos e o que nos ensina nossa própria natureza - e o que de Deus podemos conhecer pela luz da razão - concluímos que Jesus ou era o que dizia ser (Deus) ou era louco. (Sabemos que não pode ter sido apenas um bom homem e ao mesmo tempo não ser Deus, já que nenhum bom homem poderia atribuir para si a divindade se realmente não fosse Deus).
Também podemos negar que era um louco, não apenas pelo que disse e ensinou - nenhum louco jamais falou como ele, da mesma forma que nenhum homem sábio tampouco já tenha falado assim... - mas ainda pelo que seus discípulos fizeram após a sua morte. Uma fraude (o túmulo supostamente vazio) poderia ter ocorrido, mas ninguém daria a vida por uma fraude, ao menos por uma fraude sem perspectiva de proveito. Logo, devemos afirmar que Jesus verdadeiramente ressuscitou e, portanto, era Deus como dizia ser e cumpriu o que prometeu fazer.
Outra coisa que Ele disse que faria seria fundar a sua Igreja; e tanto a Bíblia (ainda que tomada como simples livro histórico e não como livro inspirado por Deus) como outras fontes históricas antigas nos fazem saber que Cristo estabeleceu uma Igreja com as características que vemos hoje na Igreja Católica: papado, hierarquia, sacerdócio, sacramentos, autoridade para ensinar e, como conseqüência desta última, infalibilidade. A Igreja de Cristo deveria gozar da infalibilidade de ensinamento se fosse cumprir aquilo para o qual Cristo a fundou.
Tomando material meramente histórico, concluímos que existe uma Igreja - a Igreja Católica - protegida pelo Espírito Santo para que possa ensinar, sem erro, até o fim dos tempos. Vejamos agora a última parte do argumento.
Essa Igreja nos diz que a Bíblia é inspirada e podemos confiar em seu ensino porque se trata de um ensinamento autorizado, infalível. Só após sermos ensinados por uma autoridade propriamente constituída por Deus para nos transmitir as verdades necessárias para a nossa fé - tal como a inspiração da Bíblia - só então é que podemos usar as Escrituras como um livro inspirado.

UM ARGUMENTO EM ESPIRAL

que se notar que o nosso argumento não cai em um círculo vicioso: não estamos baseando a inspiração da Bíblia na infalibilidade da Igreja e a infalibilidade da Igreja na palavra inspirada da Bíblia; isso seria precisamente um círculo vicioso. O que temos feito se chama "argumento em espiral": por um lado, argumentamos sobre a confiabilidade da Bíblia como texto meramente histórico; dali sabemos que Jesus fundou uma Igreja infalível e só então tomamos a palavra dessa Igreja infalível que nos ensina que a Palavra transmitida pela Bíblia é uma Palavra inspirada, Palavra de Deus. Não se trata de um círculo vicioso, já que a conclusão final (a Bíblia é a Palavra de Deus) não é o enunciado do qual partimos (a Bíblia é um livro historicamente confiável), e este enunciado inicial não está baseado, em absoluto, na conclusão final. O que demonstramos é que, se excluirmos a Igreja, não teremos suficientes motivos para afirmar que a Bíblia é a Palavra de Deus.
É certo que o que acabamos de discutir não é precisamente o raciocínio que a gente habitualmente faz ao se aproximar da Bíblia, mas é a única maneira razoável de fazê-lo na hora em que se nos perguntam por que cremos na Bíblia. Qualquer outro raciocínio é insuficiente; talvez haja argumentos mais próximos da gente sob o ponto de vista psicológico, porém, são estritamente argumentos não convincentes. Na matemática aceitamos "por fé" (não no sentido teológico do termo, é claro) que dois mais dois é igual a quatro. É uma verdade que nos parece evidente e satisfatória sem maiores argumentos, mas para quem quiser fazer um curso de matemática, deverá estudar um semestre inteiro visando provar essa verdade tão "óbvia".

RAZÕES INADEQUADAS


A questão aqui é a seguinte: os fundamentalistas têm muita razão em crer que a Bíblia é um livro inspirado por Deus, no entanto, suas razões para crer são inadequadas, insuficientes, já que a aceitação da inspiração divina das Escrituras pode se basear satisfatoriamente apenas numa autoridade estabelecida por Deus que nos assegure isso; e essa autoridade é a Igreja.
E precisamente aqui encontramos um problema mais sério: pode parecer a alguém que mesmo que eu creia na Bíblia como Palavra de Deus, pouco importa o motivo dessa minha crença; o importante seria aceitar a Bíblia como a Palavra de Deus. Porém, o motivo pelo qual uma pessoa crê na Bíblia afeta substancialmente a maneira de interpretar a Bíblia. O fiel católico crê na Bíblia porque a Igreja assim o ensina e essa mesma Igreja tem a autoridade de interpretar o texto inspirado. Os fundamentalistas, por sua vez, crêem na Bíblia - mesmo baseados em argumentos pouco convincentes - porém, não aceitam nenhuma outra autoridade para interpretar o texto bíblico a não ser os seus próprios pontos de vista.
O cardeal Newman expressava isso em 1884, da seguinte maneira: "Certamente que se as revelações e ensinamentos bíblicos do texto sagrado se dirigem a nós de uma maneira pessoal e prática, se faz obrigatória a presença formal, no meio de nós, de um juiz e expositor autorizado dessas revelações e ensinamentos. É antecedentemente irracional supor que um livro tão complexo, tão pouco sistemático, em partes tão obscuro, fruto de várias mentes tão distintas, lugares e épocas diferentes, fosse nos dado do alto sem uma autoridade interpretativa do mesmo, já que não podemos esperar que interprete a si mesmo. O fato de que seja um livro inspirado nos assegura a verdade do seu conteúdo, não a interpretação do mesmo. Como pode o simples leitor distinguir o que é didático e o que é histórico, o que é fato real e o que é uma visão, o que é alegórico e o que é literal, o que é um recurso idiomático e o que é gramatical, o que se enuncia formalmente e o que ocorre de passagem, quais são as obrigações que vigoram sempre e quais vigoram em certas circunstâncias? Os três últimos séculos têm provado, infelizmente, que em muitos países tem prevalecido a interpretação particular das Escrituras. O dom da inspiração divina das Escrituras requer como complemento obrigatório o dom da infalibilidade da sua interpretação".
As vantagens do raciocínio católico são duas: em primeiro lugar, a inspiração é estritamente demonstrada, não apenas "sentida". Segundo, o fato principal que pulsa atrás deste raciocínio - a existência de uma Igreja infalível, que nos conduz pela mão a dar uma resposta à pergunda do eunuco etíope (Atos 8,31): como saber se as interpretações do texto são mesmo as corretas? A mesma Igreja que autentica a Bíblia, que estabelece a sua inspiração, é a autoridade estabelecida por Jesus Cristo para interpretar a Sua Palavra.

 

 

A Bíblia dispensa a Tradição oral da Igreja?

A Tradição oral remonta ao próprio Cristo e aos Apóstolos. Ela é anterior à Escritura e se exprime nela. O ponto em que mais aparece a necessidade de algo anterior à Escritura, é a que se refere ao Cânon Bíblico: Como saber se um livro é ou não inspirado?

O próprio protestantismo, que afirma só reconhecer a Escritura, recorre necessariamente à Tradição Oral em 2 ocasiões:

  1. Sem a Tradição oral, não se pode definir o catálogo sagrado, pois em nenhuma parte da Escritura está escrito quais os livros que, inspirados por Deus, a devem integrar. É preciso procurar a definição dos livros sagrados fora da Escritura: na Tradição. Ora Lutero e o Protestantismo recorreram a tradição dos judeus da palestina, enquanto a Igreja Católica, seguindo o uso dos Apóstolos, optara pela tradição dos judeus de Alexandria.
  2. Na sua maneira de interpretar a Biblia, os protestantes também recorrem a uma tradição. Pois embora o texto biblico seja o mesmo para todas as denominações evangélicas, estas não concordam entre si, por exemplo, no que toca ao Batismo de criança, à observância do sábado ou do domingo, etc. As divergências não provêm do texto biblico, mas da interpretação dada a este texto por cada fundador. Ou seja, dependem da tradição oral ou escrita que cada fundador quis iniciar na sua congregação. Assim, embora queiram rejeitar a Tradição Oral, o cristão a professa sempre: professa a Tradição oriunda de Cristo e dos Apóstolos, ou a tradição oriunda de Lutero, Calvino... Cada "profeta" protestante faz o que Lutero fez: rejeita a tradição protestante anterior e começa uma nova tradição: sim, lê a Bíblia ao seu modo e dela deduz proposições de fé e de moral que, segundo a sua intuição humana falível, lhe parecem mais acertada.

Assim, a Escritura, só, não pode ser, nem é no protestantismo, a única fonte de fé. Por outro lado, a Tradição Oral e o Magistério da Igreja só tem sentido se fazem eco à Sagrada Escritura.

 

 

A necessidade da Tradição e do Sagrado Magistério da Igreja

A Igreja Católica, desde os tempos apostólicos ensina que além da Sagrada Escritura, também é necessário para a formação doutrinal e moral da Igreja, a Sagrada Tradição (compreendendo aí os ensinamentos dos apóstolos e dos primeiros cristãos) e o Sagrado Magistério ( compreendendo o que os Concílios, o Bispo de Roma em particular, e em comunhão com ele todos os Bispos definem e ensinam como verdades de fé e moral ).
Tal tríade abençoada ( Sagrada Escritura, Sagrada Tradição e Sagrado Magistério) foram e são os responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção de toda a doutrina católica nestes vinte séculos de história cristã.
O Protestantismo nega tanto a Tradição quanto o Magistério legitimamente instituído por Jesus Cristo. Para eles, a única regra é a Sola Scriptura (ou seja somente a Bíblia e nada mais do que ela é regra de fé e de moral) interpretada livremente por qualquer pessoa ( método do livre exame ). Eis Martinho Lutero a dize-lo sem rodeios: "a todos os cristãos e a cada um em particular pertence conhecer e julgar a doutrina. Anátema a quem lhe tocar um fio deste direito" ( Conforme D. M. Luthers, Werke, Kritische Gesamtausgabe. Weimar, X. 2 Abt., p. 217, 1883 ss). Como se dissesse a cada um de seus seguidores: Eia pois, valoroso cristão! Tu és mestre de ti mesmo. Despreza tudo o que os primeiros cristãos, os Bispos e os Concílios definiram como verdade. Toma tu a bíblia, senta em tua saleta e defina tu mesmo o teu cristianismo!
Procuraremos demonstrar - Se Deus o consentir - que ao abandonar tanto a Sagrada Tradição quanto o Sagrado Magistério, o protestantismo provocou inadvertidamente sua própria dissolução doutrinária e orgânica. E hoje, infelizmente, sob o elástico nome de "protestantismo" se abrigam milhares e milhares de seitas doutrinariamente e disciplinadamente discordantes entre si. Causando um fragrante escândalo à causa ecumênica e ao desejo expresso de Jesus Cristo: " Para que todos sejam um (...) e o mundo creia que tu me enviaste" ( Jo 17, 20-21).
Com efeito, sabemos, a própria Bíblia não caiu pronta dos céus. Quem definiu que cada um dos livros que compõem a Sagrada Escritura, era de inspiração Divina foi o Espirito Santo agindo através da Tradição e do Magistério Católico. Isto são fatos históricos! Quem definiu o cânon completo, tanto do antigo quanto do novo testamento, foi o Espirito Santo através da Tradição e do Magistério. Quem definiu que o Novo Testamento e o Velho fosse enfeixado em um único volume dando portanto igual valor entre os dois testamentos foi a Tradição e o Magistério. Do que viveu a Igreja católica primitiva, durante os primeiros anos de pregação? Quando o Novo testamento ainda não havia sido escrito? Sobreviveu pela Tradição e pelo Magistério.
A própria Bíblia dá testemunho interno da necessidade de uma Tradição e de um Magistério vivo, para interpretá-la e ensiná-la. Transcrevo sobre isto, o magnífico comentário de Pe. Leonel Franca: "(a própria Bíblia) inculca a necessidade do ensino vivo, a importância de conservar a tradição, a insuficiência das Escrituras, que segundo afirma São João, não encerra tudo o que ensinou o Salvador (Jo 21,25). Jesus Cristo nunca mandou aos seus discípulos que folheassem um livro para achar a sua doutrina, mandou pelo contrário aos fiéis, que ouvissem aos que Ele mandara pregar: quem vos ouve, a mim ouve; se alguém não ouvir a Igreja, seja considerado como infiel e publicano, isto é, não pertencente a minha Igreja: se alguém não vos receber nem ouvir vossas palavras, saindo da casa ou da cidade sacudi até o pó dos sapatos; Pai oro não só por estes (Apóstolos) mas por todos os que hão de crer em mim mediante a sua palavra a fim de que sejam todos uma coisa só. Foi Jesus ainda quem prometeu o seu Espírito de Verdade, a sua assistência espiritual, todos os dias, até a consumação dos séculos, para que os apóstolos vivendo moralmente em seus sucessores (os bispos ) continuassem até o final dos tempos a ensinar sempre tudo o que ele nos mandou. Eis meus caros leitores, o que diz a Bíblia" ( Franca, P. Leonel, I.R.C., 1958, pg.216-7).
Quando se fala de Magistério, evidentemente se fala do magistério legítimo, constituído por Jesus Cristo, o qual prometeu assistência especial e infalível até o final dos tempos: "Recebei o Espírito Santo (...) Eu estarei convosco até o final do tempos". Hoje, qualquer papalvo se atribui a si mesmo o título de "bispo" e sai por aí a fundar seitas e pregar doutrinas. Evidentemente este não é um magistério legítimo. O indivíduo que a si mesmo se premia com o título de "bispo", nada mais é que um mentiroso sacrílego.
Os próprios apóstolos ensinaram à exaustão a respeito da necessidade da Sagrada tradição e do Magistério legitimamente constituído. Vejamos S. João em suas últimas duas epístolas dizer expressamente que não quis confiar tudo por escrito, mas havia outras coisas que comunicaria à viva voz ( II Jo., 12 ; III Jo, 14). O apóstolo São Paulo, inculca fortemente a necessidade de uma tradição e um magistério vivo: "Estais firmes, irmãos e conservai as tradições que aprendestes ou de viva voz..." ( II Tes 2,15 ); "que vos aparteis de todos os que andam em desordens e não segundo a tradição que receberam de nós" (II Tes 3,6); "O que de mim ouvistes por muitas testemunhas, ensina-o a homens fiéis que se tornem idôneos para ensinar aos outros" (II Tm 2,2). A Igreja fundada por Cristo, portanto, seria ela "a coluna e o firmamento da verdade" ( I Tm 15). A Igreja fundada por Cristo portanto é maior que a Sagrada Escritura. Pois a Igreja é quem a escreveu, a definiu, a interpreta e a ensina. Os primeiros cristãos seguindo os ensinamentos dos apóstolos e já de posse da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério, nem pensam ser a Bíblia a única regra de fé. Aqui, por falta de espaço, vamos respigar apenas algumas citações da vasta seara dos testemunhos primitivos: "Advertia, antes de tudo, as igrejas das diversas cidades, evitassem, sobre todas as coisas, as heresias que começavam então a se alastrar e exortava-as a se aterem tenazmente à tradição dos apóstolos" ( Eusébio resumindo o ensino de S. Inácio de Antioquia, martirizado no ano 107 DC cf. Euséb., Hist. Eccles., III, 36 / MG, 20, 287); "Antes exortei-vos a vos conservardes unânimes na doutrina de Deus, pois Jesus Cristo nossa vida inseparável, é a doutrina do Pai, como a doutrina de Jesus Cristo são os bispos constituídos nas diversas regiões da terra" ( clara alusão ao Sagrado Magistério) ( S. Inácio, + 107 DC in Ad Ephesios, 3-4) ; "Sob Clemente, havendo nascido forte discórdia entre os irmãos de Corinto, a Igreja de Roma escreveu-lhes uma carta enérgica, exortando-os à paz, reparando-lhes a fé, e anunciando-lhes a tradição que havia pouco tinham recebido dos apóstolos" ( S. Irineu, martirizado em 202 DC in Contra as Heresias III, c.3,n.3) ; "Aí está claro, a quantos querem ver a verdade, a tradição dos apóstolos, manifesta em toda a Igreja disseminada pelo mundo inteiro..."( S. Irineu mártir in Contra as heresias III, 3, 1) ; "Não devemos buscar nos outros a verdade que é fácil receber da Igreja, pois os apóstolos a mãos cheias, versaram nela, como em riquíssimo depósito, toda a verdade... Este é o caminho da vida" (Idem, In Contra as heresias III, 4, 1); "E se os apóstolos não nos houvessem deixado as Escrituras, não cumpria seguir a ordem da Tradição por eles ensinada aos a quem confiavam à sua Igreja?" ( Idem, In Contra as heresias III, 4,1) ; "De nada vale as discussões das Escrituras. A heresia não aceita alguns de seus livros, e se os aceita, corrompe-lhes a integridade, adulterando-os com interpolações e mutilações ao sabor de suas idéias, e se, algumas vezes admitem a Escritura inteira, pervertem-lhe o sentido com interpretações fantásticas..." ( Tertuliano séc III In De Praescriptionibus., c. 19 / ML, II,31). Na mesma obra assevera que onde estiver a verdadeira Igreja, "aí se achará a verdade das Escrituras, da sua interpretação e de todas as tradições cristãs" ( Idem, De Praescript., c. 19 ML, II, 31).
Jesus Cristo, instituiu para sua Única Igreja, um Magistério verdadeiro, pois disse à Pedro: "Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; tudo o que ligares na terra será ligado nos céus..." ( Mt 16, 18-19), e em outro lugar "Eu estarei convosco até o final dos tempos". Para os católicos, se Jesus prometeu ficar conosco até o final dos tempos ele irá cumprir literalmente esta promessa. Se ele disse que a sua Igreja iria se manter firme por todo o sempre porque as portas do inferno não iriam prevalecer, nós cremos que ele está cumprindo concretamente esta promessa.
Pois não é exatamente isto que constatamos na Igreja Católica? Dois mil anos de existência ininterrupta. E que constância doutrinária e moral admirável! Quantas perseguições e vicissitudes e no entanto "as portas do inferno não prevaleceram". Parte desta unidade e estabilidade maravilhosa devemos certamente à instituição da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério por Cristo e pelos apóstolos.
O protestantismo negando tanto a Tradição quanto o Magistério sofre desde os seus primórdios uma desintegração doutrinária assombrosa. Onde Cristo fundou a Igreja Católica sobre a Rocha, Lutero e Cia fundaram a Igreja Evangélica sobre a areia movediça da sola scriptura e do livre exame. E logo nas primeiras ventanias, pôs-se a casa dos reformadores a desabar fragorosamente: tábuas lançadas aqui e ali, telha lá e acolá, junturas e cacos em todas as direções.
As divisões e subdivisões do Protestantismo desafiam hoje a paciência dos mais abnegados dos estatísticos.
Vejamos como no princípio deste século, o Reverendíssimo Pe. Leonel Franca já chamava a atenção para este fato, descrevendo lucidamente o processo de desagregação doutrinária do protestantismo, baseado no método da sola scriptura e do livre exame: "Na nova seita (protestantismo) não há autoridade, não há unidade, não há magistério de fé. Cada sectário recebe um livro que o livreiro lhe diz ser inspirado e ele devotamente o crê sem o poder demonstrar; lê-o, entende-o como pode, enuncia um símbolo, formula uma moral e a toda esta mais ou menos indigesta elaboração individual chama cristianismo evangélico. O vizinho repete na mesma ordem as mesmas operações e chega a conclusões dogmáticas e morais diametralmente opostas. Não importa; são irmãos, são protestantes evangélicos, são cristãos, partiram ambos da Bíblia, ambos forjaram com o mesmo esforço o seu cristianismo" ( In I.R.C. Pg. 212 , 7ª ed.).
Vejamos alguns exemplos práticos: um fiel evangélico quer mudar de seita? Precisa-se rebatizar? Umas igrejas dizem sim, outras não. Umas admitem o batismo de crianças, outras só de adultos, umas admitem a aspersão, infusão e imersão. Aquela outra só imersão, e mesmo há grupelho que só admite batismo em água corrente e sem cloro! Aqui e ali as fórmulas de batismo são tão variadas como as cores do arco-íris. Quer o sincero evangélico participar da Santa Ceia? Há seitas que consideram o pão apenas pão (pentecostais) outras que o pão é realmente o corpo de Cristo (Luteranos, Episcopais e outros). Uns a praticam com pão ázimo, outras com pão comum, aqui com vinho, lá com vinho e água, acolá com suco de uva. A Santa Ceia pode ser praticada diariamente, mensalmente, trimestralmente, semestralmente, anualmente ou não ser praticada nunca. Trata-se de ministérios ordenados? Esta seita constitui Bispos, presbíteros e diáconos. Àquela só presbíteros e pastores, ali pastores e anciãos, lá Bispos e anciãos, acolá presbíteros e diáconos, outras não admitem ministro nenhum. Umas igrejas ordenam mulheres, outras não. E por aí, atiram os evangélicos em todas as solfas quando o assunto é ministério ordenado. Após a morte, o que espera o cristão ? Pode um crente questionar seu pastor sobre isto? E as respostas colhidas entre as denominações seria tão rica e variada quanto a fauna e a flora. Há Pastor que prega que todos estarão inconscientes até a vinda de Cristo quando serão julgados; outros pregam o "arrebatamento" sem julgamento; outros, uma vida bem-aventurada aqui mesmo na terra; aqueles lá doutrinam que após a morte já vem o céu e o inferno; no outro quarteirão, se ensina que o inferno é temporário; opinam alguns que ele não existe; e tantas são as doutrinas sobre os novíssimos quanto os pastores que as pregam. Está cansado o fiel da esposa da sua juventude? Não tem importância, sempre encontrará uma seita a lhe abrir risonhamente as portas para um novo matrimônio. E de vez em quando não aparece um maluco aqui e ali aprovando a poligamia? Lutero mesmo admitiu tal possibilidade: "Confesso, que não posso proibir tenha alguém muitas esposas; não repugna às Escrituras; não quisera porém ser o primeiro a introduzir este exemplo entre cristãos" ( Luthers M.., Briefe, Sendschreiben (...) De Wette, Berlin, 1825-1828, II. 259 ). Não há uma pesquisa nos Estados Unidos que demonstra que entre os critérios para um evangélico escolher sua nova igreja está o tamanho do estacionamento? Eis o que é hoje o protestantismo.
Vejamos neste passo a afirmação de Krogh Tonning famoso teólogo protestante norueguês, convertido ao catolicismo, que no século passado já afirmava: "Quem trará à nossa presença uma comunidade protestante que está de acordo sobre um corpo de doutrina bem determinado ? Portanto uma confusão (é a regra ) mesmo dentre as matérias mais essenciais" ( Le protest. Contemp., Ruine constitutionalle, p. 43 In I.R.C., Franca, L., pg 255. 7ª ed, 1953)
Mas o próprio Lutero que saiu-se no mundo com esta novidade da sola scriptura viveu o suficiente para testemunhar e confessar os malefícios que estas doutrinas iriam causar pelos séculos afora: "Este não quer o batismo, aquele nega os sacramentos; há quem admita outro mundo entre este e o juízo final, quem ensina que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros aquilo, em breve serão tantas as seitas e tantas as religiões quantas são as cabeças" ( Luthers M. In. Weimar, XVIII, 547 ; De Wett III, 6l ). Um outro trecho selecionado, prova que o Patriarca da Reforma tinha também de quando em quando uns momentos de bom senso: "Se o mundo durar mais tempo, será necessário receber de novo os decretos dos concílios (católicos) a fim de conservar a unidade da fé contra as diversas interpretações da Escritura que por aí correm" ( Carta de Lutero à Zwinglio In Bougard, Le Christianisme et les temps presents, tomo IV (7), p. 289).
Gostaríamos de terminar por aqui para não sermos enfadonhos. Quando o Pai do Protestantismo, diante da dissolução das seitas, já há quinhentos anos atrás, confessa ao outro "reformador" que seria necessário receber de novo o Sagrado Magistério ( Concílios ) para manter a unidade, a regra do livre exame e da sola scriptura já está julgada por si mesma.

 

A suficiência material e a suficiência formal das Escrituras

Por suficiência material entendemos que todas as informações necessárias para se formular uma doutrina estão presentes nas Escrituras. Entretanto, pelo fato de o significado das Escrituras não ser totalmente claro, e algumas vezes as doutrinas se encontram mais implícitas que explícitas, outros "meios", além da Bíblia somente, foram- nos deixados pelos apóstolos: A Sagrada Tradição (que é a ferramenta que extrai as informações e as dispõe da forma correta) e o Magistério da Igreja. Juntas, estas três formas - a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja - são formalmente suficientes para que se reconheça a verdade revelada por Deus.
Aqueles que defendem a suficiência formal das Escrituras advertem que reunir a Tradição ao contexto bíblico inevitavelmente tornará a última inferior à primeira. Temem, com isso, que meras tradições humanas subjulgue a palavra de Deus.

(Mark Shea, in Not by Scripture Alone,
Robert A. Sungenis, Santa Barbara, CA:
Queenship Pub. Co., 1997, cap 4)

A Trindade pode ser provada pelas Escrituras, de fato (suficiência material), mas o uso somente das Escrituras não foi formalmente suficiente para evitar o aparecimento da heresia ariana. Em outras palavras, a decisão final da disputa ficou por conta da Sagrada Tradição, que demonstrou que a Igreja sempre foi trinitariana. Os arianos não podiam recorrer a nenhuma Tradição porque sua cristologia era uma inovação herética do século 4.
Os arianos, com isso, recorreram somente à Escritura. O princípio formal dos arianos era deficiente, por isso eles puderam recorrer à Bíblia e formular suas doutrinas (assim como vários grupos protestantes hoje em dia).
Os católicos alegam, então, que o conhecimento da Tradição apostólica é necessário juntamente ao conhecimento bíblico. Este é o princípio patrístico, e a forma como ele refuta os heréticos. Os argumentos bíblicos contribuíram com o centro de suas doutrinas, mas no fim deveriam consultar a Tradição do que "sempre foi aceito por todos e em todo lugar" (São Vicente de Lérins, Commonitorium).
Edwin Tait, anglicano, escreveu (em total acordo com o conceito católico):

Com certeza os Padres ensinaram que podiam provar suas conclusões a partir da Bíblia. Também ensinaram que a comunhão dos bispos sucessores dos apóstolos, reunidos em Concílio (com Roma tendo algum papel, o qual não pretendo abordar aqui), seriam os responsáveis pela correta interpretação da Bíblia. Todo este debate sobre a Sola Scriptura somente se tornou realidade quando um número considerável de cristãos começaram a afirmar que os bispos reunidos em Concílio haviam errado na interpretação bíblica durante vários séculos. Ambos os lados podem recorrer aos Pais, porque os Pais nunca ensinaram sobre a suficiência bíblica e a autoridade da Igreja/Tradição em discordância.

Concordo plenamente com o texto acima. Note que a última frase é importantíssima. Esta é a visão dos apóstolos, padres, do catolicismo, orientais e do anglicanismo histórico. Muitos protestantes, infelizmente, sentem não medem esforços - desnecessários - em separar estas duas autoridades. Livros inteiros já foram escritos sobre uma suposta defesa da Sola Scriptura pelos Pais da Igreja, quando na realidade estes defendem a suficiência material, a sua inspiração e suficiência em refutar os heréticos e falsas doutrinas em geral. É fácil pensar que os Pais foram defensores da Sola Scriptura se seus ensinamentos sobre a Tradição Apostólica e a Autoridade da Igreja forem suprimidos ou ignorados pelos protestantes. Uma "meia-verdade" às vezes pode ser pior que uma mentira completa, pois quem a ensina deveria conhecer melhor do assunto, ou pelo menos conhece "metade" dele...
Podemos dizer que a Trindade não é uma doutrina clara nas Escrituras. A verdade é que esta doutrina foi o resultado de uma discussão de cerca de 400 anos. Tal fato não pode ser ignorado. Se a Trindade fosse demonstrada nas Escrituras com a claridade que os protestantes alegam que possui, tal doutrina, definida em Calcedônia, já deveria ser seguida e transmitida muito antes.
As Escrituras, isoladas, são suficientes para refutar o arianismo? Creio que sim. Apesar disso, creio que também seja verdade que alguém, em uma situação hipotética, que não conheça nada sobre história da Igreja ou teologia, sem saber como se chegou à definição formal da doutrina da Trindade, começasse a ler uma Bíblia, a doutrina ariana parecia tão plausível para ele como também pareceria a doutrina da Trindade. Isso porque esta doutrina não é imediatamente acessível à razão humana. É uma revelação e um mistério que precisa ser aceito pelos olhos da fé (sem reduzir suas provas Bíblicas).
Eu conheço casos semelhantes devido a minha experiência em diálogos com Testemunhas de Jeová. Eles lêem a Bíblia de maneira liberal e racionalista, chegando a conclusões tais como "três não pode ser igual a um" (que é matematicamente verdadeiro, mas não em relação aos mistérios de Deus).
Um outro exemplo vem da minha vida pessoal. Fui criado como protestante metodista, e os metodistas são trinitarianos, mas eu não conhecia nada de teologia. Era tão ignorante nesse assunto que ao assistir a um filme sobre a vida de Jesus, aos 17 anos, com meu irmão mais velho, fiquei chocado quando ele disse que Jesus era Deus. Eu respondi "não, ele é o filho de Deus". Então meu irmão me ensinou um pouco do básico da cristologia cristã.
Em outras palavras, se alguém conhece muito pouco de teologia, ele pode facilmente abrir sua Bíblia, ler que Jesus é o filho de Deus, ou "meu Pai é maior que eu", e muitas outras passagens semelhantes, concluir que Jesus é menor que Deus. Arianismo. Ou como os TJs fazem, ao ler Ap 3,14 ("Eis o que diz o Amém...o Princípio da criação de Deus") e concluir que Jesus fora criado. Estes são exemplos de como nascem as heresias ao longo dos tempos.
Com relação aos Padres, tudo o que é preciso para demonstrar que eles não ensinavam a Sola Scriptura é verificar se as afirmações abaixo se aplicam a um Padre em particular.
1. A Bíblia possui autoridade
2. A Tradição Apostólica possui autoridade
3. A Igreja possui autoridade
Aceitando estes três itens, é impossível que alguém também aceite a Sola Scriptura, porque nesta doutrina, a Bíblia (e a consciência individual) possui a autoridade sobre a Tradição e a Igreja (Lutero, em Worms, foi o defensor deste mesmo princípio), com a garantia de que a Bíblia é sempre - supostamente - "clara" em seus ensinamentos.
Os protestantes, claro, não aceitam os itens 2 e 3, simplesmente. Os Padres afirmam que compõem um tripé, atuando juntas, não contradizendo uma à outra, porque Deus não permitiria tal confusão. É aqui que entra a fé.
A Igreja Católica afirma a suficiência material das Escrituras (assim como os Padres). Porém rejeita a sua suficiência formal, que na realidade é o núcleo do dogma protestante Sola Scriptura.
A autoridade da Igreja é uma necessidade prática, dada a tendência do homem de subverter a Tradição Apostólica como está nas Escrituras, seja ela clara ou não. O fato é que quando uma controvérsia aparece, uma autoridade fora da Bíblia deve encerrar todas as dúvidas e confirmar a ortodoxia. Isto não quer dizer que a Bíblia, apropriadamente entendida, não seja suficiente para refutar erros. Ela apenas não é formalmente suficiente por si só.
Já escrevi livros e vários artigos onde cito extensivamente a Bíblia. Isto não significa que não respeito a autoridade da Igreja ou que eu seja um defensor da Sola Scriptura. Santo Atanásio escreveu extensos argumentos bíblicos. Ótimo, com isso, estudando a Bíblia, fazendo exegese, discutindo suas páginas, pregando, etc., etc., são atos maravilhosos e bons (e os católicos concordam plenamente), mas nenhum destes gestos nos reduz a uma necessidade lógica de adotar a Sola Scriptura como princípio formal.
Heiko Oberman, historiador protestante, afirma:

Em relação à Igreja pré-augustiniana, há recentemente uma tendência convergente entre os estudiosos da Bíblia de que a Escritura e a Tradição na Igreja Primitiva não eram excludentes: kerygma, Escritura e Tradição coincidiam perfeitamente.
A tradição não deve ser entendida como uma adição ao kerygma, mas como a sua pregação de forma viva: em outras palavras, tudo que é encontrado na Sagrada Escritura está presente na Tradição.
Ela está presente no corpo visível de Cristo, inspirado e vivificado pela obra do Espírito Santo...A Escritura e a Tradição derivam de uma única fonte: a Palavra de Deus. Somente na Igreja este kerygma pode ser transmitido sem falhas...

The Harvest of Medieval Theology, Grand Rapids,
MI
: Eerdmans, rev. ed., 1967, 366-367

Jaroslav Pelikan, historiador luterano, afirma:

Claramente há um anacronismo em supor que as discussões dos séculos 2 e 3 derivam das controvérsias do século 16 em relação à Escritura e Tradição, pois 'na Igreja ante-nicena não havia a noção de Sola Scriptura, como também não havia a Sola Traditio.'[1]
A Tradição apostólica era pública...tão palpável que mesmo se os apóstolos não estivessem com a Escritura em mãos para demonstrar uma norma de suas doutrinas, a igreja ainda assim seguiriam 'a estrutura da tradição que eles traziam a quem confiaram as igrejas'[2]. Isto foi, de fato, o que a igreja fez nos territórios bárbaros onde o material escrito não era disponível aos ouvintes, conservando o conteúdo da fé transmitida pelos apóstolos e sumarizada no credo...
O termo "regra de fé" ou "regra de verdade"...parece algumas vezes ter pertencido à Tradição, outras à Escritura, outras à mensagem do Evangelho...
Na Reforma...os advogados da autoridade final das Escrituras ignoraram a função da Tradição em conservar o que se conhecia como correta exegese das Escrituras contras as alternativas heréticas.

The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine: Vol. 1 of 5: The Emergence of the Catholic Tradition (100-600), Chicago: Univ. of Chicago Press, 1971, 115-117, 119; citações: [1]. In Cushman, Robert E. & Egil Grislis, eds., The Heritage of Christian Thought: Essays in Honor of Robert Lowry Calhoun, New York: 1965, citado em Albert Outler, "The Sense of Tradition in the Ante-Nicene Church," 29. [2]. St. Irineu, Contra as Heresias, 3:4:1

 

A interpretação da Bíblia

Muitos escritores não levam em conta o sentido original, o gênero literário e a intenção dos autores sagrados; interpréta-os como se fossem textos modernos, que podem ser entendidos segundo as categorias de pensamento do homem de hoje. Os autores parecem mesmo desconfiar da exegese dita "científica".
Eis, porém, que é regra de sadia exegese procurar, antes do mais, o significado preciso do texto original; é necessário entender o texto como o autor sagrado o entendia e daí depreender a mensagem que ele queria transmitir. A inspiração do texto bíblico por parte do Espírito Santo não equivale a ditado mecânico; supõe sempre as categorias de pensamento do escritor oriental, antigo. Estas, portanto, têm que ser, primeiramente, detectadas e reconhecidas para que se possa compreender genuinamente a página bíblica. Este procedimento exegético tem sido enfaticamente recomendado pela Igreja desde Pio XII (encíclica Divino Afflante Spiritu, 1943) até o Concílio do Vaticano li, que em sua Constituição Dei Verbum ditou as normas seguintes: `Já que Deus falou na Sagrada Escritura através de homens e de modo humano, deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que os hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras.
Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem-se levar em conta, entre outras coisas, também os gêneros literários Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos históricos, proféticos ou poéticos ou nos demais gêneros de expressão. Ora é preciso que o Intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e de sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio dos gêneros literários então em uso. Pois, para entender devidamente aquilo que o autor sagrado quis afirmar por escrito é necessário levarem conta sejam aquelas usuais maneiras nativas de sentir, de dizer e de narrar que eram vigentes nos tempos do hagiógrafo, sejam as que em tal época se costumavam empregar nas relações dos homens entre si".
Verdade é que muitos dos exegetas científicos desde o fim do século XVIII têm cedido ao racionalismo, a ponto de esvaziarem por completo o texto bíblico. É o que vem provocando a réplica do chamado "Fundamentalismo" que se apega à letra do texto como ele soa em suas versões vernáculas e se fecha aos estudos de lingüística, arqueologia, história antiga... Ora o Fundamentalismo é posição extremada, errônea, como o racionalismo, pois ignora o mistério da condescendência divina, que assume as modalidades da linguagem e da cultura dos homens antigos para falar à humanidade. Assim se lê num documento da Pontifícia Comissão Bíblica intitulado "A Interpretação da Bíblia na Igreja" e datado de 15/4/1993: "O problema de base da leitura fundamentalista é que, recusando levar em consideração o caráter histórico da revelação bíblica, ela se toma incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O Fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus Ele se recusa a admitir que a Palavra de Deus inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, ele tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado, palavra por palavra, pelo Espírito e não chega a reconhecer que apalavra de Deus foi formulada numa linguagem e numa fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Ele não dá atenção ás formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e leva a marca de situações históricas muito diversas.
O Fundamentalismo insiste também de maneira indevida sobre a inerrância dos pormenores nos textos bíblicos, especialmente em matéria de história ou de pretensas verdades científicas. Muitas vezes ele toma histórico aquilo que não tinha a pretensão de historicidade, pois ele considera como histórico tudo aquilo que é narrado ou contado com os verbos em tempo pretérito, sem a necessária atenção à possibilidade de um sentido simbólico ou figurativo". Por conseguinte, nem racionalismo nem fundamentalismo... Mas é necessário que o exegeta proceda sempre em duas etapas:
- procure, mediante os recursos da lingüística, da arqueologia, da história antiga... definir claramente o sentido do texto original ou aquilo que o autor humano queria dizer;
- a seguir, coloque esses resultados no conjunto das proposições da fé. A Sagrada Escritura é um longo discurso de Deus, homogêneo, que tem suas linhas centrais e seus acordes, que devem projetar luz sobre cada secção desse discurso. É o que São Paulo chamava "a analogia da fé ou a proporção da fé" (Rm 12,6). Esta fé é vivida e proclamada pela Igreja, cujo magistério recebeu de Cristo a garantia da autenticidade (cf. Jo 14, 26; 16,13-15). Assim o estudioso católico chega ao entendimento exato do texto sagrado. Não incute suas idéias ao texto (o que seria fazer in-egese), mas deduz do texto a mensagem objetiva (faz ex-egese). Quem assim não procede, corre o risco do subjetivismo ou de interpretações pessoais, semelhantes às que ocorrem no protestantismo.


As Revelações Particulares
Nenhuma revelação particular é endossada oficialmente pela Igreja. Esta não pode colocar no mesmo plano a revelação feita por Jesus Cristo e pelos autores bíblicos e qualquer revelação ocorrida em caráter particular após a era dos Apóstolos. A revelação oficial e pública termina com a geração dos Apóstolos; cf. Lumen Gentium n°- 25; Dei Verbum nº 4. Em conseqüência torna-se difícil crer que Deus queira continuar e explicitar a revelação outrora feita pelas Escrituras servindo-se de revelações não oficiais ou fazendo destas o complemento daquelas.
As revelações particulares, quando genuínas, geralmente corroboram o Evangelho, incutindo duas notas importantes: oração e penitência. Assim em La Salette, em Lourdes, em Fátima... Qualquer outra predição, principalmente se é muito minuciosa, torna-se suspeita. É não raro a satisfação que os "videntes" dão à sua própria curiosidade de saber o decurso do futuro; imaginam-no como se fosse revelado por Deus. Independentemente dessas minúcias, ficará sempre válida a exortação à conversão e à oração, tão recomendada pelo Evangelho e corroborada pelos sinais dos tempos atuais; estes pedem que os cristãos muito especialmente sejam o sal da terra, a luz do mundo (cf. Mt 5,13s), o fermento na massa (cf. Mt 13,33). A consideração dos nossos tempos, portanto, deve levar ao afervoramento da vida dos cristãos, abstração feita de predições sinistras.

Sobre o Cânon Bíblico

Quantas vezes você já ouviu de algum protestante a afirmação de que a Igreja Católica teria acrescentado vários livros apócrifos à Bíblia durante o Concílio de Trento, no séc. XVI? Quando eles falam isso, estão querendo se referir a sete livros do Antigo Testamento que não se encontram em suas bíblias: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e os dois livros dos Macabeus (além de alguns trechos dos livros de Daniel e Ester). Porém, a própria História - que é imutável - desmente tal argumento, vistos os testemunhos abaixo:

  • "Cânon 36 - Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos1, dois livros dos Paralipômenos2, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão3, doze livros dos Profetas4, Isaías, Jeremias5, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras6 e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos7, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo8, uma do mesmo aos Hebreus9, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João.10 Sobre a confirmação deste cânon se consultará a Igreja do outro lado do mar11. É também permitida a leitura das Paixões dos mártires na celebração de seus respectivos aniversários12" (Concílio de Hipona, 08.Out.393).
  • "Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos, dois livros dos Paralipômenos, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão, doze livros dos Profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras e dois [livros] dos Macabeus. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos, um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo, uma do mesmo aos Hebreus, duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João. Isto se fará saber também ao nosso santo irmão e sacerdote, Bonifácio, bispo da cidade de Roma, ou a outros bispos daquela região, para que este cânon seja confirmado, pois foi isto que recebemos dos Padres como lícito para ler na Igreja" (Concílio de Cartago III (397) e Concílio de Cartago IV (419)).
  • "Tratemos agora sobre o que sente a Igreja Católica universal, bem como o que se dever ter como Sagradas Escrituras: um livro do Gênese, um livro do Êxodo, um livro do Levítico, um livro dos números, um livro do Deuteronômio; um livro de Josué, um livro dos Juízes, um livro de Rute; quatro livros dos Reis13, dois dos Paralipômenos; um livro do Saltério; três livros de Salomão: um dos Provérbios, um do Eclesiastes e um do Cântico dos Cânticos; outros: um da Sabedoria, um do Eclesiástico. Um de Isaías, um de Jeremias com um de Baruc e mais suas Lamentações, um de Ezequiel, um de Daniel; um de Joel, um de Abdias, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias, um de Malaquias. Um de Jó, um de Tobias, um de Judite, um de Ester, dois de Esdras, dois dos Macabeus. Um evangelho segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas, um segundo João. [Epístolas:] a dos Romanos, uma; a dos Coríntios, duas; a dos Efésios, uma; a dos Tessalonicenses, duas; a dos Gálatas, uma; a dos Filipenses, uma; a dos Colossences, uma; a Timóteo, duas; a Tito, uma; a Filemon, uma; aos Hebreus, uma. Apocalipse de João apóstolo; um, Atos dos Apóstolos, um. [Outras epístolas:] de Pedro apóstolo, duas; de Tiago apóstolo, uma; de João apóstolo, uma; do outro João presbítero, duas14; de Judas, o zelota, uma. (Catálogo dos livros sagrados, composto durante o pontificado de São Dâmaso [366-384], no Concílio de Roma de 382)
  • "Quais os livros aceitos no cânon das Escrituras, o breve apêndice o mostra: Cinco livros de Moisés, isto é, Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Um livro de Josué, filho de Num; um livro dos Juízes; quatro livros dos Reinos; e Rute. Dezesseis livros dos Profetas; cinco livros de Salomão; o Saltério. Livros históricos: um de Jó, um de Tobias, um de Ester, um de Judite, dois dos Macabeus, dois de Esdras, dois dos Paralipômenos. Do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos; quatorze epístolas do apóstolo Paulo, três de João, duas de Pedro, uma de Judas, uma de Tiago; os Atos dos Apóstolos; e o Apocalipse de João" (papa Inocêncio I, 20.02.405; Carta "Consulenti Tibi" a Exupério, bispo de Tolosa).
  • "Devemos agora tratar das Escrituras Divinas. Vejamos o que a Igreja Católica universalmente aceita e o que deve ser evitado: (1) Começa a ordem do Antigo Testamento: um livro da Gênese, um do Êxodo, um do Levítico, um dos Números, um do Deuteronômio, um de Josué (filho de Nun), um dos Juízes, um de Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, um livro de 150 Salmos, três livros de Salomão (um dos Provérbios, um do Eclesiastes, e um do Cântico dos Cânticos). Ainda um livro da Sabedoria e um do Eclesiástico. (2) A ordem dos Profetas: um livro de Isaías, um de Jeremias com Cinoth (isto é, as suas Lamentações), um livro de Ezequiel, um de Daniel, um de Oséias, um de Amós, um de Miquéias, um de Joel, um de Abdias, um de Jonas, um de Naum, um de Habacuc, um de Sofonias, um de Ageu, um de Zacarias e um de Malaquias. (3) A ordem dos livros históricos: um de Jó, um de Tobias, dois de Esdras, um de Ester, um de Judite e dois dos Macabeus. (4)A ordem das escrituras do Novo Testamento, que a Santa e Católica Igreja Romana aceita e venera são: quatro livros dos Evangelhos (um segundo Mateus, um segundo Marcos, um segundo Lucas e um segundo João). Ainda um livro dos Atos dos Apóstolos. As 14 epístolas de Paulo Apóstolo: uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Efésios, duas aos Tessalonicenses, uma aos Gálatas, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon e uma aos Hebreus. Ainda um livro do Apocalipse de João. Ainda sete epístolas canônicas: duas do Apóstolo Pedro, uma do Apóstolo Tiago, uma de João Apóstolo, duas epístolas do outro João (presbítero) e uma de Judas Apóstolo (o zelota)" (papa S. Gelásio, ~495; Decreto Gelasiano; repetido em 520 pelo papa S. Hormisdas. Seguido também pelo Concílio Ecumênico de Florença15 [1438-1445], e novamente ratificado pelos Concílio de Trento16 [1546-1563] e Vaticano I [1870])).
  • Outras Fontes:
    Concílio Regional de Trulos, realizado no ano 692.

1 Trata-se dos dois livros de Samuel (1Rs/2Rs) e os dois livros de Reis (3Rs/4Rs).
2 Isto é, os dois livros das Crônicas (1Cr/2Cr).
3 Ou seja: Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico.
4 A saber: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
5 Incluindo as "Lamentações" e "Baruc", segundo a Septuaginta.
6 Isto é, o livro de Esdras e o livro de Neemias.
7 Mateus, Marcos, Lucas e João.
8 Aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, a Tito e a Filemon.
9 Curiosa distinção resultada, provavelmente, dos escrúpulos que a Igreja Africana tinha a respeito da autenticidade literária paulina dessa epístola.
10 Percebe-se, assim, que o cânon coincide perfeitamente com o cânon definido pelo Concílio de Trento.
11 Trata-se da Igreja de Roma.
12 Alusão ao culto dos santos mártires.
13 Os Concílios regionais de Cartago simplesmente repetem, com as mesmas palavras, o conteúdo do cânon 36 do Concílio regional de Hipona. A diferença está somente na conclusão.
14 Interessante distinção, já que antiquíssima tradição de Éfeso distinguia o João Apóstolo de um João Presbítero, da mesma região.
15 cf. Decreto "Pro Iacobitis" (da Bula "Cantate Domino", de 04.02.1441): "...O Sacrossanto Concílio professa que um e o mesmo Deus é o autor do Antigo e do Novo Testamento, isto é, da Lei, dos Profetas e do Evangelho, pois os santos de ambos os Testamentos falaram sob a inspiração do mesmo Espírito Santo. Este Concílio aceita e venera os seus livros que vêm indicados pelos títulos seguintes: Cinco livros de Moisés (isto é, Gênese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reis, dois dos Paralipômenos, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, Jó, o Saltério de Davi, as Parábolas (Provérbios), Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico, Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze Profetas menores (isto é, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias) e dois livros dos Macabeus. Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), catorze epístolas de Paulo (uma aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos Efésios, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filemon, uma aos Hebreus), duas epístolas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas, os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse de João".
16 cf. Decreto sobre o Cânon (sessão IV, de 08.04.1546).

Como está definido o Cânon Bíblico

A Bíblia é formada pelos seguintes livros:

  • Antigo Testamento: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1Samuel, 2Samuel, 1Reis, 2Reis, 1Crônicas, 2Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, 1Macabeus, 2Macabeus, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes (ou Coélet), Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sirácida), Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
  • Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1Coríntios, 2Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1Tessalonicenses, 2Tessalonicenses, 1Timóteo, 2Timóteo, Tito, Filêmon, Hebreus, Tiago, 1Pedro, 2Pedro, 1João, 2João, 3João, Judas e Apocalipse.

Portanto, o Antigo Testamento é formado por 46 livros e o Novo Testamento reúne 27 livros.

A Bíblia foi escrita em três línguas diferentes: o hebraico, o aramaico e o grego (Koiné). Quase a totalidade do Antigo Testamento foi redigida em hebraico, embora existam algumas palavras, trechos ou livros em aramaico e grego. Quanto ao Novo Testamento, este foi completamente redigido em grego - a única exceção parece ser o livro de Mateus, originariamente escrito em aramaico, contudo esse original foi perdido de maneira que resta-nos hoje a versão em grego.

Quanto ao Antigo Testamento, a Bíblia protestante possui sete livros a menos que a Bíblia católica. Ocorre que a Igreja Católica, desde o início, utilizou a tradução grega da Bíblia chamada Septuaginta ou Versão dos Setenta (LXX). Essa tradução para o grego foi feita no séc. III aC, em Alexandria (Egito), por setenta e dois sábios em virtude da existência de uma grande comunidade judaica nessa cidade que já não mais compreendia a língua hebraica. Na época em que foi feita essa tradução, a lista (cânon) dos livros sagrados ainda não estava concluída, de forma que essa versão acabou abrigando outros livros, ficando mais extensa. Essa foi a Bíblia adotada pelos Apóstolos de Jesus em suas pregações e textos: das 350 citações que o Novo Testamento faz dos livros do Antigo Testamento, 300 concordam perfeitamente com a versão dos Setenta, inclusive quanto às diferenças com o hebraico.

Por volta do ano 100 dC, os judeus da Palestina se reuniram em um sínodo na cidade de Jâmnia e estabeleceram alguns critérios para formarem o seu cânon bíblico. Esses critérios eram os seguintes:

  1. O livro não poderia ter sido escrito fora do território de Israel.
  2. O livro não poderia conter passagens ou textos em aramaico ou grego, mas apenas em hebraico.
  3. O livro não poderia ter sido redigido após a época de Esdras (458-428 aC).
  4. O livro não poderia contradizer a Lei de Moisés (Pentateuco).

Assim, os livros escritos por aquela enorme comunidade judaica do Egito não foram reconhecidos pelo sínodo de Jâmnia, por causa de seus critérios ultranacionalistas. Também em virtude desses critérios, o livro de Ester - que em parte alguma cita o nome de Deus - foi reconhecido como inspirado mas somente a parte escrita em hebraico; os acréscimos gregos, que incluíam orações e demonstravam a real presença de Deus como condutor dos fatos narrados, foram completamente desprezados, deixando uma lacuna irreparável.

Os livros não reconhecidos pelo sínodo da Jâmnia e que aparecem na tradução dos Setenta são tecnicamente chamados de deuterocanônicos, em virtude de não terem sido unânimemente aceitos. São, portanto, deuterocanônicos no Antigo Testamento os seguintes livros: Tobias, Judite, Baruc, Eclesiástico, Sabedoria, 1Macabeus e 2Macabeus, além das seções gregas de Ester e Daniel.

Com a dúvida levantada pelo sínodo de Jâmnia, alguns cristãos passaram a questionar a inspiração divina dos livros deuterocanônicos. Os Concílios regionais de Hipona (393), Cartago III (397) e IV (419), e Trulos (692), bem como os Concílios Ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870), confirmaram a validade dos deuterocanônicos do Antigo Testamento, baseando-se na autoridade dos Apóstolos e da Sagrada Tradição.

Da mesma forma como existem livros deuterocanônicos no Antigo Testamento, também o Novo Testamento contém livros e extratos que causaram dúvidas até o séc. IV, quando a Igreja definiu, de uma vez por todas, o cânon do Novo Testamento. São deuterocanônicos no Novo Testamento os livros de Hebreus, Tiago, 2Pedro, Judas, 2João, 3João e Apocalipse, além de alguns trechos dos evangelhos de Marcos, Lucas e João.

Com o advento da Reforma Protestante, os evangélicos - a partir do séc. XVII1 - passaram a omitir os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento. Alguns grupos mais radicais chegaram - sem sucesso - a tentar retirar também os livros deuterocanônicos do Novo Testamento. É de se observar, dessa forma, que caem em grande contradição por não aceitarem os deuterocanônicos do Antigo Testamento enquanto aceitam, incontestavelmente, os deuterocanônicos do Novo Testamento.


1 O próprio Lutero (fundador da Reforma) traduziu e publicou, para a língua alemã, os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento.

Os livros deuterocanônicos fazem parte da Bíblia?

O texto abaixo é um debate promovido pelo site "Agnus Dei", defendendo o canôn bíblico definido pela Igreja Católica. As partes escritas em Italico mostram as argumentações de um irmão sobre a visão protestantes do canôn bíblico. As respostas à todas estas argumentações são mostradas logo abaixo, nos textos escritos em preto.

Caro, irmão:

Achei este texto de ataque ao cânon católico. Quando possível, gostaria de receber observações suas sobre o texto.

  • Prezado Fabiano,

Vamos lá...

"No que diferem as Bíblias Católicas das Protestantes"

  • De fato, existem diferenças entre as Bíblias Católicas e as Bíblias Protestantes...

Nas Católicas há os livros chamados Apócrifos. Apócrifo antigamente no tempo dos Persas tinha um sentido esotérico, depois passou a significar Coisas Escondidas, Ocultas ou Secretas. Mais tarde esse termo foi sendo aplicado a livros de autenticidade incerta e hoje se aplica a livros religiosos não inspirados tais como esses que encontramos nas Bíblias Católicas;

  • Há uma meia verdade neste parágrafo. Realmente o termo "apócrifo" tem significado pejorativo, desde meados do séc IV dC, indicando autenticidade incerta. Porém, o termo não se aplica aos livros e acréscimos indicados pelo autor deste artigo no parágrafo seguinte, mas sim aos livros que não foram considerados inspirados pela Igreja primitiva (ex.: Evangelho de Tomé; Apocalipse de Paulo; 3Macabeus; etc.) - veja uma lista bem mais completa dos livros apócrifos no artigo "Quais são os livros apócrifos?"

São chamados mais apropriadamente de "deuterocanônicos" por se tratar de livros que não se encontram na Bíblia Palestinense (definida pelos judeus da Palestina em 90 dC), mas na Bíblia Alexandrina (dos judeus que habitavam nesta cidade do Egito). Os livros que coincidiam nas duas Bíblias são chamados de "protocanônicos".

Foi Lutero quem começou a chamar estes livros de apócrifos no séc XVI dC e, para complicar mais ainda, passaram a chamar de "pseudoepígrafos" aqueles livros de autenticidade evidentemente falsa, que nós, católicos (e também ortodoxos), chamamos de "apócrifos". O motivo disso é que os protestantes têm certas dificuldades teológicas se admitirem a autenticidade destes livros, pois apresentam de forma bem clara certas doutrinas refutadas por eles, como, por exemplo, o purgatório, a oração em favor dos mortos e a intercessão dos santos.

Os livros apócrifos são: Tobias, Judite, Sabedoria de Jesus ben Sirach ou Eclesiástico, Sabedoria de Salomão, Baruque, I Macabeus, II Macabeus, Acréscimos a Daniel, Acréscimos a Ester.

  • A informação aqui está correta com a única ressalva de que não são livros e acréscimos apócrifos, mas sim deuterocanônicos...

Qual a sua origem?

a) Ptolomeu Filadelfo rei do Egito ordenou que traduzissem os escritos dos hebreus para o Grego, língua oficial do mundo de então, para assim enriquecer a sua biblioteca;

  • A tradução dos livros dos hebreus para o grego se deu entre os anos 300 e 150 aC na Alexandria (Egito) e passou a ser chamada de Septuaginta (ou "LXX"), pois a tradição afirma de que foi realizada por 72 tradutores. A razão da tradução, entretanto, não foi simplesmente "enriquecer" a biblioteca do rei, mas tinha como principal propósito tornar acessível a Palavra de Deus aos judeus que viviam ali, numa enorme e próspera colônia, e que, com o passar dos anos, já não mais reconheciam a língua hebraica, embora guardassem plenamente a sua fé e identidade, como judeus que realmente eram.

O autor deste artigo reconhece isto - ainda que timidamente, pra variar - no item imediatamente a seguir...

b) O afrouxamento dos Judeus da grande colônia hebraica de Alexandria quanto ao estudo da sua própria língua;

  • Não se trata precisamente de um "afrouxamento" mas sim de um fator natural, que ocorre com qualquer língua minoritária em certa região onde a esmagadora maioria fala uma outra língua. Por exemplo, o português tem origem no latim, mas hoje, no Brasil (e até mesmo em Portugal), é muito difícil encontrar alguém que conheça plenamente a língua latina. Foi afrouxamento nosso? Certamente que não... trata-se de um processo de desenvolvimento lento e contínuo, estritamente natural e sem qualquer ligação com relaxamento...

c) A grande influência helenista nos judeus alexandrinos;

  • Isto de modo algum "manchou" a fé dos judeus, bastando lembrar que Jesus também era judeu e nunca fez ressalva alguma sobre tal questão; muito pelo contrário...

d) O grande desejo do mundo grego de conhecer os escritos dos judeus.

  • Esta afirmação parece-me um tanto quanto esvaziada, porque o mundo grego, na verdade, desprezava o conhecimento dos hebreus, pois não contavam com filósofos. É justamente por essa razão que São Paulo fala das vãs filosofias (Col 2,8) e diz que pregar a cruz de Cristo é escândalo para os judeus (já que o Messias seria o libertador de Israel) e loucura para os gregos (porque é contrário à filosofia); entretanto, o próprio São Paulo não abre mão da razão (=filosofia) para pregar o Evangelho pelo mundo grego (v. Atos dos Apóstolos)...

Em outras palavras: não eram os gregos que tinham interesse de conhecer os escritos judaicos, mas eram os judeus - e mais tarde também os cristãos - que tinham o interesse de propagar a Palavra de Deus; os judeus por puro proselitismo; os cristãos, pela Salvação de toda criatura humana.

Data 200 A.C. até 100 A.C. foram eles escritos.

  • A crítica moderna (inclusive protestante) sugere as seguintes datas de composição para os livros em debate:
    • Tobias: 200 aC (em hebraico ou aramaico)
    • Judite: 150 aC (em hebraico ou aramaico)
    • 1Macabeus: 100 aC (em hebraico ou aramaico)
    • 2Macabeus: 100 aC (em grego)
    • Eclesiástico: 200 (em hebraico) e 130 (tradução grega)
    • Sabedoria: 100 aC (em grego)
    • Baruc: 200 aC (em grego, talvez tradução do hebraico)
    • acréscimos a Ester: 160 aC (em grego)
    • acréscimos a Daniel: 100 aC (em grego)

Entretanto, o fato de terem sido os últimos livros a serem escritos no Antigo Testamento, de forma alguma reduz-lhes o valor. Também o fato de alguns terem sido escritos fora do território da Palestina não significa que não sejam inspirados porque, ainda assim, foram escitos por representantes legítimos do Povo de Deus!

IV - Erros ensinados pelos apócrifos, que estão em contradição com o restante da Bíblia

  • Alguns desses "erros" foram com certeza retirados de um livretinho de autoria de Jaime Reda, chamado "Assim Diz a Bíblia". Embora não o afirme, o autor certamente é adventista e, como qualquer protestante, tem dificuldade em explicar doutrinas tão claras que se opõem ao que prega a sua seita...

Vamos analisar os "erros" e "refutar a refutação" do autor: primeiro, demonstrando que a Bíblia possui (nos livros que o autor aceita como inspirados, isto é, os "protocanônicos" do Antigo Testamento e todo o Novo Testamento) outros exemplos daquilo que o autor considera errado; segundo, apresentando a contradição do autor com o ensinamento bíblico...

A-1. Dar esmolas purifica o pecado

a) Tobias 12:9 - "Porque a esmola livra da morte e é a que apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna.";
b) Tobias 4:10 - "Porque a esmola livra de todo o pecado e da morte e não deixará, cair a alma nas trevas.";
c) Eclesiástico 3:33 - "As esmolas resgatam o pecado.";
d) II Macabeus 12:43-46 - "E tendo feito uma coleta, mandou 12 mil dracmas de prata, a Jerusalém, para serem oferecidas em sacrifício pelos pecados dos mortos, sentindo bem e religiosamente da ressurreição... Se Judas não tivesse esperança de que se erguessem de novo os que caíram teria sido supérfluo orar pelos mortos... É pois um santo e salutar pensamento orar pelos mortos para que sejam livres de seus pecados".

  • "Porquanto qualquer um que vos der a beber um copo de água em meu nome, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa"(Mc 9,41).
  • "Dai, porém, de esmola o que está dentro do copo e do prato, e eis que todas as coisas vos serão limpas" (Lc 11,41)
  • "Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2,26)

2. Refutação:

a) Oferta em dinheiro para perdão do pecado não encontramos em nenhum lugar da Bíblia, isto é coisa diabólica, pois assim somente os ricos teriam o perdão dos pecados;
b) I Pedro 1:18-19 - não foi com ouro ou prata que fomos comprados;
c) Atos 10:4-6 - não somente dar esmolas mas conhecer e praticar a verdade;
d) Efésios 2:8-9 - somos salvos pela graça de Deus e não por dinheiro;
e) Isaías 55:1 - compra sem dinheiro.

  • O que importa não é se a esmola é oferecida em dinheiro ou em espécie, mas com a intenção de querer fazer o bem, por amor a Jesus. É dar a quem precisa, sem guardar o sentimento de retribuição. Isto agrada ao Senhor (até um pequeno e simples copo de água!!) e O levará a considerar tal feito no Dia do Juízo; portanto, não há dúvidas de que a esmola apaga pecados, não no sentido de torná-los inexistentes, mas compensados... Foi justamente por isso que a pobre viúva que deu tudo o que tinha foi elogiada por Cristo, em detrimento aos ricos (cf. Lc 21,3); mesmo assim, estes ricos, que deram do que tinha de sobra, também não foram condenados - a diferença é que estes terão uma recompensa menor do que aquela viúva (haverá, portanto, uma compensação). Jesus confirma também o valor da esmola juntamente com outras formas de piedade (Mt 6,2-18), que cobrem "uma multidão de pecados" (1Ped 4,8).

B-1. Ensino de Crueldade e do Egoísmo

a) Eclesiástico 12:6 - "Não favoreças aos ímpios; retém o teu pão e não o dê a ele".

  • "Deste modo extirparás o mal do teu meio, para que os outros ouçam, fiquem com medo e nunca mais tornem a praticar o mal no meio de ti. Que teu olho não tenha piedade. Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé" (Dt 19,19-20).

2. Refutação:

a) Eclesiastes 11:1-2 - lança o teu pão;
b) Provérbios 25:21-22 - dá-lhe pão para comer e água para beber;
c) Romanos 12:20;
d) Mateus 5:44-48 - amar os nossos inimigos.

  • É mais do que claro que o autor do Eclesiástico segue rigorosamente o ensino do Antigo Testamento (v. especialmente Êxodo e Deuteronômio). Se lermos Eclo 12,4-7, perceberemos que não se trata de esmola dada aos necessitados, mas sim de benefícios o que, certamente, é melhor concedê-los a gente honesta do que a pessoas malvadas. Santo Agostinho escreveu sobre esta passagem de Eclo: "Não dês ao pecador enquanto pecador, dá-lhe enquanto homem". Logo, a referida passagem não se refere à crueldade, muito menos se refere ao egoísmo.

C-1. Pecados perdoados pela oração

a) Eclesiástico 3:4 - "Quem amar a Deus receberá perdão de seus pecados pela oração".

2. Refutação:

a) Os pecados não se perdoam pela oração, se fosse assim, não teríamos necessidade de Jesus. Todos os povos pagãos fazem orações, mas os pecados não se perdoam somente pela oração;
b) Provérbios 28:13 - o que confessa e deixa alcançará misericórdia;
c) I João 1:9 - renúncia do pecado;
d) I João 2:1-2 - Cristo é quem perdoa.

  • Tal refutação é, no mínimo, ridícula. O livro do Eclesiástico - de onde foi tirado o exemplo dos pecados perdoados pela oração - pertence ao AT e, como todos os demais, são apenas um preparativo para a nova Aliança em Cristo. Além do mais, a confissão não deixa de ser uma oração - seja no ponto de vista católico, através do Ato de Contrição, seja no ponto de vista protestante, onde o pecador tentar obter seu perdão diretamente de Deus. Portanto, o autor cai em contradição consigo mesmo.

D-1. O Ensino do Purgatório

a) Sabedoria 3:1-4 - "Mas as almas dos justo estão nas mãos de Deus; e o tormento da morte não as tocará. Aos olhos dos ignorantes pareciam eles morrer e sua partida foi considerada desgraça. E, sua separação de nós, por uma extrema perda. Mas eles estão em paz. E embora aos olhos dos homens sofram tormentos, sua esperança está plenamente na imortalidade.";
b) Isto é a doutrina do Purgatório.

  • "Em verdade te digo que de maneira nenhuma [sairás] dali enquanto não pagares o último ceitil" (Mt 5,26)
  • "Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mt 12,32)
  • "Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo" (1Cor 3,15).

2. Refutação:

a) I João 1:7 - esse ensino aniquila completamente a expiação de Cristo. Se o pecado, pudesse ser extinguido pelo fogo, não teríamos necessidade de um Salvador;
b) Eclesiastes 9:6 - os mortos não sabem coisa nenhuma - Isaías 38:18-19;
c) I Tessalonissenses 4:13-16 - na ressurreição os justos serão galardoados.

  • A doutrina do Purgatório de forma alguma aniquila a obra de Cristo; muito pelo contrário... Sabemos muito bem que nada de impuro pode entrar no céu (Mt 5,8); por outro lado sabemos que aquele que disser que não tem pecados é um mentiroso (1Jo 1,10). No entanto, o Senhor é justo juiz (2Tim 4,8) e recompensa até um copo d'água que é dado em seu nome (Mt 9,41). Logo, embora o purgatório não seja mencionado com este nome na Escritura (a Santíssima Trindade também não é e todos os cristãos a professam como verdade revelada!), a sua realidade é incontestável. Observe-se, ainda, que o purgatório é somente para os que estão salvos mas ainda possuem pecados não expiados, tornando necessária a purificação para ver a Deus. Quem for julgado para a perdição, não tem como passar pelo purgatório para expiar seus pecados...

No site do Agnus Dei existem diversos artigos sobre o Purgatório, explicando-o com mais detalhes. Utilize a ferramenta de busca interna, existente no Índice de Assuntos, para localizá-los mais facilmente...

E-1. O Ensino da Vingança

a) Judite 9:2 - "O Senhor Deus, do meu pai Simeão, a quem deste a espada para executar vingança contra os gentios".

  • "Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé..." (Ex 21,24)
  • "Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado algum homem, assim lhe será feito." (Lv 24,20)
  • "O teu olho não terá piedade dele; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé." (Dt 19,21)

2. Refutação:

a) Gênesis 34:30 - o aborrecimento de Jacó pela vingança de Simeão contra os cananitas;
b) Gênesis 49:5-7 - a maldição de Jacó porque eles usaram de vingança;
c) Romanos 12:17-19 - minha é a vingança do Senhor.

  • Será que os exemplos que citei acima, tirados do Êxodo, Levítico e Deuterônimo são exemplos de amor ao próximo? Também não é necessário falar das mortes efetivadas pelos hebreus durante a Conquista da Terra Prometida... O autor do presente artigo não poderia ser mais infeliz para refutar alguma coisa dos deuterocanônicos...

F-1. Suicídio

a) II Macabeus 12:41 - "... quando ele se viu a ponto de ser preso, feriu-se com a sua espada, preferindo morrer nobremente a ver-se sujeito a pecadores, e padecer ultrajes indignos de seu nascimento".

  • A citação acima é tirada de 2Mc 14,41-42 e não de 2Mc 12,41!
  • "Sansão invocou a Javé e exclamou: 'Senhor Javé, eu te suplico, vem em meu auxílio; dá-me forças ainda esta vez, ó Deus, para que, de um só golpe, eu me vingue dos filisteus por causa dos meus dois olhos'. E disse: 'Morra eu com os filisteus!'". (Jz 16,28.30).

2. Refutação:

a) morrer nobremente é a frase perigosa. A Bíblia nos conta de alguns suicídios, mas nunca os qualifica de cousa ou ato nobre;
b) a vida e morte dependem de Deus e nós, não podemos desertar da vida para nos livrar de dificuldades. Cristianismo quer dizer paciência, abnegação. Tudo sofre, tudo suporta;
c) Transgressão do mandamento "Não matarás".

  • A Bíblia possui diversos casos de suicídio - principalmente entre guerreiros - além do registrado pelo autor deste artigo: Jz 9,54; 16,28-29; 1Sm 31,4-5; 2Sm 17,23; 1Rs 16,18. O suicídio de Sansão (Jz 16,28-29) embora não seja classificado explicitamente como "morte nobre", é tido como grandioso pelo autor do livro dos Juízes, pois ele deu a sua vida pelo seu povo, utilizando contra os seus inimigos a força final recebida de Deus. Poderíamos, por isto, dizer que o suicídio é algo grandioso?? Que Deus aprova? Ou estaria Sansão ardendo no Inferno?

Se fosse algo sempre nobre ou grandioso, a Igreja Católica, por conseguinte, não condenaria o suicídio como sempre o fez. Ensina o Catecismo da Igreja: "Cada um é responsável por sua vida diante de Deus que lha deu e que dela é sempre o único soberano Senhor. Devemos receber a vida com reconhecimento e preservá-la para sua honra e salvação das nossas almas. Somos os administradores e não os proprietários da vida que Deus nos confiou. Não podemos dispor dela". Entretanto, a Igreja reconhece: "Não se pode desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida".

G-1. O Ensino de Artes Mágicas

a) Tobias 6:8 - "Se tu puseres um pedacinho do seu coração (do peixe que ele havia apanhado) sobre brasas acesas, o seu fumo afugenta toda a casta de demônios, tanto do homem como da mulher, de sorte que não tornam mais chegar a eles". Verso 9 - "E o fel é bom para untar os olhos que tem algumas névoas, e sararão.".

  • "Dito isto, cuspiu no chão e com a saliva fez lodo, e untou com lodo os olhos do cego e lhe disse: 'Vai lavar-te na piscina de Siloé' [...] O cego foi. lavou-se e voltou vendo" (Jo 9,6)
  • "Está doente algum de vós? Chame os anciãos da igreja, e estes orem sobre ele, ungido-o com óleo em nome do Senhor" (Tg 5,14)

2. Refutação:

a) não encontramos tal coisa em nenhum lugar da Bíblia;
b) não precisamos de truques para enfrentar o diabo;
c) maneiras de enfrentar o diabo e os demônios: Mateus 4:4-10;
d) Tiago 4:7 - resisti ao diabo e ele fugirá;
e) maneiras de expulsar demônios: Marcos 16:17 e Atos 16:18.

  • Também não encontramos em qualquer outro lugar da Bíblia que a lama oriunda do cuspe misturada com a terra cura os cegos. Seria então Jesus um feiticeiro? :)

Torna-se claro, portanto, que existe um interesse oculto na referida passagem de Tobias, que só será desvendado em 8,3, quando o próprio Anjo Rafael expulsa o demônio (e não Tobias através do coração, fel e fígado do peixe). O interesse, portanto, é ocultar a identidade do Anjo para Tobias até a efetiva expulsão do demônio...

H-1. Mentiras

a) Judite 11:13-17 - Judite mentindo para Holofernes;
b) Tobias 5:15-19 - o anjo Rafael mentindo.

  • "Abraão disse de sua mulher Sara: 'É minha irmã' e Abimelec, rei de Gerara, mandou buscar Sara (Gen 20,2)
  • "Jacó disse: 'eu sou o teu filho primogênito, Esaú, fiz como me ordenaste...' Disse [Isaac]: 'Tu és o meu filho Esaú?' Respondeu: 'Eu o sou'. E logo que sentiu a fragrância de seus vestidos, abençoou-o." (Gen 27,19)

2. Refutação:

a) Deus nunca sancionou a mentira nem mesmo nos seus servos;
b) O mal começou com a mentira no céu;
c) Gênesis 3:4 - certamente morrerás;
d) João 8:44 - quem é o originador e pai de todas as mentiras, portanto não pode um anjo de Deus mentir;
e) João 14:6 - Jesus diz ser o caminho, a Verdade e a vida. Todos os seguidores, de Cristo devem ser verdadeiros.

  • Também os grandes patriarcas hebreus mentiram e não foram abandonados por Deus; muito pelo contrário... Abraão foi pai de muitas nações (Gen 17,5); Jacó manteve a bênção de Deus e teve seu nome mudado para Israel (Gen 35,10).

É certo que a mentira atenta contra a verdade e é sempre proposital; entretanto, não se pode igualar os graus de mentira (generalizando-a) ou desconhecer-lhe a intenção (para prejudicar ou beneficiar alguém com ou sem prejuízo de outrem).

I-1. Tolices

a) Tobias 2:10 - as fezes de uma andorinha, caindo nos olhos de Tobias que estava dormindo junto a um muro deixa-o cego;

  • Os médicos também afirmam que o esterco de andorinha pode queimar os olhos... A observação também é feita na Bíblia Sagrada versão de Matos Soares (ed. Paulinas), na pág. 484.

b) Judite 8:5-6 - uma mulher jejuando a vida inteira, menos aos sábados;

  • A mulher em questão é a própria Judite.O fato de jejuar todos os dias não significa que não bebesse água, que é o elemento fundamental para o corpo humano. Também Jesus jejuou por 40 dias e 40 noites seguidos e não morreu (Mt 4,2). Certamente aos sábados Judite se alimentava bem, pelo menos com o suficiente para se manter firme... Vários santos também impuseram sobre si rigorosa rotina de jejum, principalmente os ermitões que viviam no deserto. Não há, neste caso, nenhuma "tolice" em Judite...

c) II Macabeus 15:40 - "beber sempre água é coisa prejudicial".

  • A frase completa é: "Assim como é nocivo beber somente vinho ou somente água, enquanto que é agradável beber água misturada com vinho...". A frase encerra, portanto, uma verdade, que é o abuso; tudo que é feito em excesso é prejudicial, rompendo um equilíbrio que deve ser mantido. Mesmo assim, o que o autor se refere neste versículo é quanto à agradabilidade da narração de sua obra, que deve encantar os ouvidos. Você já bebeu água sem vontade? É horrível, não? Já bebeu vinho sem gostar? É ruim também porque queima a garganta... Misturando os dois fica agradável, saboroso, porque alcança um equilíbrio ao gosto do degustador. Assim deve ser qualquer obra literária: deve agradar o leitor!

V - Razões interessantes

Roma não pode chamar as outras Bíblias de falsas por não conterem os Apócrifos, assim como não pode se chamar uma nota de falsa por não ter ela uns acréscimos que alguém julgue que ela deva ter;

  • Pode sim! Pode porque foi a Igreja que definiu o cânon bíblico no séc. IV, selecionando os livros do Novo Testamento e confirmando todos os livros do Antigo Testamento segundo a versão da Septuaginta, incluindo os 7 livros aqui debatidos, bem como os acréscimos a Ester e Daniel. E a autoridade da Igreja para estabelecer o cânon é indiscutível, pois ela é a "coluna e o fundamento da Verdade" (1Tim 3,15).

E pode também porque a Igreja Católica foi fundada sobre os Apóstolos, que usaram a Septuaginta para escrever o Novo Testamento: das 350 citações do AT, 300 obedecem a versão dos LXX! Se o autor segue a autoridade dos judeus de Jâmnia para definir o seu cânon, deve deixar de lado todos os livros do Novo Testamento; porém, se aceita a autoridade da Igreja, fundada por Cristo, não tem como deixar de lado os livros deuterocanônicos, pois estaria (como de fato está) em contradição.

Em II Macabeus encontramos o autor do livro pedindo perdão pelas suas falhas como escritor. Se crêssemos que estes livros estão no mesmo pé de igualdade com os inspirados, ficaríamos então admirados de ver agora o Espírito Santo pedindo desculpas por algumas falhas, o que é inconcebível;

  • Não tem nada a ver! Também São Paulo afirma em 1Cor 7,12: "Aos outros sou eu quem digo e não o Senhor: se algum irmão tem uma mulher sem fé e esta consente em habitar com ele, não a repudie". Será que esta passagem também não é inspirada? Se não é, por que ainda se encontra na Bíblia??? Por que não foi simplesmente riscada?? E se fosse riscada, o que impediria de riscar toda a 1Coríntios?

O Senhor Jesus e os Apóstolos fazem 205 citações do V.T. e mais 304 alusões ao mesmo e não dizem nenhuma palavra sequer a respeito de um dos livros Apócrifos;

  • Não é verdade. Veja-se, por exemplo, o seguinte caso: em Hebreus 11,35 lemos que "Algumas mulheres reencontraram os seus mortos pela ressurreição. Outros foram esquartejados, recusaram o resgate para chegar a uma ressurreição melhor". A quem o Apóstolo se refere ao falar de algumas mulheres? Certamente ao filho da viúva ressuscitado por Elias (1Rs 17,22-23) e ao filho da sunanita ressuscitado por Eliseu (2Rs 4,35-36). Até aí tudo bem... Porém pergunte a um protestante:

Onde você encontra na Bíblia alguém que aceitou ser esquartejado crendo na esperança da ressurreição?

Ele poderá revirar todo o Antigo Testamento da sua Bíblia protestante, do Gênese ao profeta Malaquias, mas nada encontrará... O Apóstolo estaria mentindo? Não! Ele se refere ao martírio dos sete irmãos que lemos em 2Mac 7! Isto é indiscutível!!

Fora esta passagem, existem pelo menos mais 344 referências no NT aos livros deuterocanônicos... Veja a lista em "O Novo Testamento e os Deuterocanônicos", na área da Bíblia do site do Agnus Dei.

Jerônimo, o tradutor da Vulgata declarou que os Apócrifos não eram canônicos;

  • Por volta do ano 90 dC, vários anos após a destruição de Jerusalém pelos romanos, os judeus (fariseus) se reuniram em um sínodo na cidade de Jâmnia e definiram um cânon usando de critérios meramente nacionalistas (v. o artigo "Como está definido o cânon bíblico" na área de Apologética), deixando de fora os 7 livros em questão, pois não atendiam a tais requisitos.

São Jerônimo, até o ano 390 aceitava os livros deuterocanônicos como inspirados mas, indo para a Terra Santa e passando a traduzir a Bíblia para o latim diretamente do hebraico, foi influenciado pelos rabinos a considerar somente os livros aceitos pelos judeus da Jâmnia. Ainda assim, é possível encontrar mais de 200 referências aos deuterocanônicos nas obras do Santo. Fora isso, a questão do cânon bíblico para a Igreja cristã ainda não estava definida, o que torna compreensível e justificada a posição de Jerônimo.

Porém, a Igreja Católica resolveu a situação a partir dos Concílios regionais de Hipona (393), Cartago III (397) e Cartago IV (418). Em 450, o papa Inocêncio I reafirmou o cânon bíblico com todos os deuterocanônicos numa carta ao bispo Exupério de Tolosa. Para maiores detalhes, ler o artigo "Testemunhos Cristãos Primitivos - O Cânon Bíblico", na área de Patrística.

Somente em 8 de Abril de 1546 é que a Igreja Católica se lembrou que esses livros deveriam estar canonizados; Nesse concílio que declarou os Apócrifos como autorizados, não havia nenhuma autoridade entre eles. Havia somente 53 prelados italianos e espanhóis na sua maioria. Nenhum alemão. Era mais um concílio religioso do que ecumênico, portanto não tinha autoridade;

  • Papo furado! A Igreja Católica usa os deuterocanônicos desde a era apostólica. A definição de sua inspiração já se dera oficialmente em Hipona (393) e Cartago (397 e 418), como vimos acima. Também o concílio ecumênico de Florença (1441) professou solenemente o católogo completo dos livros sagrados, pelo menos 1 século antes de Trento. A Bíblia de Guttemberg, o primeiro livro a ser impresso no mundo por volta de 1450 , também continha os deuterocanônicos.

Foi o herege Martinho Lutero, apenas em 1534, que colocou os referidos livros em apêndice, com o título de apócrifos, em sua tradução alemã da Bíblia. Pelo menos teve a decência de deixá-los por considerá-los bons e de utilidade (segundo palavras usadas pelo próprio "rerformador" no prólogo).

A Igreja Católica Ortodoxa sempre fez restrições aos Apócrifos;

  • Outra inverdade, que demonstra desconhecimento histórico e eclesiológico. O Concílio de Trulos, reunindo padres da Igreja Oriental em 692, também considerou os livros deuterocanônicos como inspirados. O mesmo ocorreu nos sínodos de Constantinopla (1638), de Yassi (1642) e de Jerusalém (1672) - após a Reforma Protestante.

Também a Sociedade Bíblica Unida (representada no Brasil pela Sociedade Bíblica do Brasil), instituição protestante que produz Bíblias, afirma em sua Agenda de Oração-1996, pág. 5: "Deuterocanônicos: As Bíblias para as Igrejas Católica Romana e Ortodoxa contêm livros extras, que não fazem parte da Bíblia usada pelas Igrejas Protestantes". A única exceção entre os ortodoxos trata-se da Igreja Ortodoxa Russa; ainda assim, é livre entre estes aceitar ou não os deuterocanônicos.

Católicos Scholars rejeitam os Apócrifos:

a) Bede e John of Salisbury - 1180 A.D.;
b) William Ockham - 1347;
c) Cardeal Ximenes mandou editar na Espanha a Bíblia Poliglota e não continha os Apócrifos - 1514-17;
d) Após o Concílio de Trento em 1546 ter pronunciado os livros Apócrifos canônicos Sixtus de Siena em 1566 insistiu em separar os livros Apócrifos da Bíblia."

  • "Scholars"? Acho que este artigo tem origem americana... Seria bom que o tradutor pelo menos disfarçasse, traduzindo o termo ou pelo menos indicando a fonte...

Não conheço a opinião destes senhores e sinceramente pouco me importa... São meras opiniões huimanas, sem a autoridade oficial da Igreja, "fundamento e coluna da verdade" (1Tim 3,15). Nem todo aquele que se diz "católico" é católico de verdade, infelizmente. Jesus deu autoridade aos seus Apóstolos, à sua Igreja... Os apóstolos usaram a Septuaginta com os deuterocanônicos; a Igreja sempre os reconheceu como inspirados, havendo aqui ou ali poucas vozes destoantes, quase sempre influenciadas por judeus... Eu aceito a autoridade da Igreja, dos Apóstolos e, por consequência, de Jesus - que prometeu estar com sua Igreja até a consumação dos séculos (Mt 28,20). Dizer que a Igreja errou ao definir o cânon é chamar Jesus de mentiroso, por não cumprir sua promessa de permanecer conosco. Tal proposição, entretanto, é absurda!

E, pelo que vimos até aqui, existem muito mais argumentos em favor da inspiração dos deuterocanônicos do que contra... Em outras palavras: quem é contra os deuterocanônicos ainda não conseguiu provar que estes não fazem parte da Bíblia... Estão em maus lençóis!

A versão da septuaginta

A Septuaginta foi a primeira tradução do Antigo Testamento hebraico, feita em grego popular antes da Era Cristã. Este artigo tratará do seguinte:

  1. Sua importância;
  2. Sua origem;
    1. Segundo a Tradição;
    2. Segundo o ponto de vista comumente aceito.
  3. Sua história subseqüente, recensões, manuscritos e edições;
  4. Seu valor crítico e linguagem.

1. Importância Histórica da Septuaginta
A importância da versão da Septuaginta é representada pelas seguintes considerações:

  1. A Septuaginta é a mais antiga tradução do Antigo Testamento e, consequentemente, de valor incalculável para os críticos compreenderem e corrigirem o texto hebraico (Massorético), que é posterior - aquele que chegou até nós - pois foi estabelecido pelos massoretas no séc. VI d.C.. Muitas corrupções textuais, adições, omissões ou transposições foram incorporadas ao texto hebraico entre os séculos III-II a.C. e VII d.C.; assim, os manuscritos da Septuaginta colocados à disposição dos críticos podem ser bem melhor compreendidos em alguns pontos que os manuscritos massoréticos.
  2. A versão da Septuaginta - primeiramente aceita pelos judeus de Alexandria e, mais tarde, por todas as nações de língua grega - auxiliou na expansão, entre os gentios, da idéia e expectativa do Messias, e introduziu a terminologia teológica no grego, tornando-a o melhor instrumento para a propagação do Evangelho de Cristo.
  3. Os judeus a usaram muito antes da Era Cristã e, no tempo de Cristo, foi reconhecida como texto legítimo, tendo sido inclusive empregada na Palestina pelos rabinos. Os apóstolos e evangelistas a usaram também e fizeram citações do Antigo Testamento a partir dela, especialmente no que diz respeito às profecias. Os padres e outros escritores eclesiásticos da Igreja primitiva citavam-na diretamente - no caso dos padres gregos - ou indiretamente - no caso dos padres e escritores latinos e outros que empregavam as versões latinas, siríacas, etíopes, árabes e góticas. Seguramente, era tida em grande estima por todos, chegando alguns a acreditar de que era inspirada. Consequentemente, o conhecimento da Septuaginta auxilia na perfeita compreensão dessas literaturas [da Igreja primitiva].
  4. Atualmente, a Septuaginta é o texto oficial da Igreja grega e as antigas versões latinas usadas pela Igreja ocidental também foram feitas a partir dela; a mais antiga tradução adotada pela Igreja latina - a Vetus Ítala - foi preparada diretamente sobre a Septuaginta: as idéias adotadas nela, os nomes e palavras gregas empregadas (tais como: Gênese, Êxodo, Levítico, Números [Arithmoi], Deuteronômio) e, finalmente, a pronúncia dada ao texto hebraico, passaram freqüentemente para a Ítala e, a partir desta, às vezes, para a Vulgata, que não raramente, apresenta sinais da influência da Vetus Ítala (principalmente nos Salmos: a tradução da Vulgata é meramente o texto da Vetus Ítala corrigido por São Jerônimo conforme o texto da Septuaginta encontrado na Hexápla [de Orígenes]).


2. Origem da Septuaginta

  1. Segundo a Tradição
    A versão da Septuaginta é primeiramente mencionada na Carta de Aristéias a seu irmão Filócrates. Aqui está, substanciamente, o que lemos sobre a origem de tal versão: Ptolomeu II Filadélfo, rei do Egito (287-247 a.C.) tinha estabelecido recentemente uma valiosa biblioteca em Alexandria. Ele foi persuadido por Demétrio de Fálaro - responsável pela biblioteca - a enriquecê-la com uma cópia dos livros sagrados dos judeus. Para conquistar as boas graças deste povo, Ptolomeu, por conselho de Aristéias - oficial da guarda real, egípcio de nascimento e pagão por religião - emancipou 100 mil escravos de diversas regiões de seu reino. Ele, então, enviou representantes - entre os quais Aristéias - a Jerusalém e pediu a Eliazar - o sumo-sacerdote dos judeus - para que fornecesse uma cópia da Lei e judeus capazes de traduzi-la para o grego. A embaixada obteve sucesso: uma cópia da Lei ricamente ornamentada foi enviada para o Egito, acompanhada por 72 israelitas - seis de cada tribo - para atender o desejo do rei. Estes foram recebidos com grande honra e durante sete dias surpreenderam a todos pela sabedoria que possuíam, demonstrada em respostas que deram a 72 questões; então, eles foram levados para a isolada ilha de Faros e ali iniciaram os seus trabalhos, traduzindo a Lei, ajudando uns aos outros e comparando as traduções conforme iam terminando. Ao final de 72 dias, a tarefa estava concluída. A tradução foi lida na presença de sacerdotes judeus, príncipes e povo reunidos em Alexandria; a tradução foi reconhecida por todos e declarada em perfeita conformidade com o original hebraico. O rei ficou profundamente satisfeito com a obra e a depositou na sua biblioteca.
    Ainda que possua características lendárias, a narrativa de Aristéias ganhou crédito: Aristóbulo (170-50 a.C.), em uma passagem preservada por Eusébio, afirma que "através dos esforços de Demétrios de Fálero, uma tradução completa da legislação judaica foi realizada nos dias de Ptolomeu"; o relato de Aristéias é repetido quase que literalmente por Flávio Josefo (Ant.Jud. XII,2) e substancialmente - com a omissão do nome de Aristéias - por Filo de Alexandria (De Vita Moysis II,6). A carta e o relato foram aceitos como genuínos por muitos padres e escritores eclesiásticos até o início do séc. XVI; outros detalhes que serviram para enfatizar a extraordinária origem da versão foram acrescentados ao relato de Aristéias: os 72 intérpretes foram inspirados por Deus (Tertuliano, Santo Agostinho, o autor de "Exortação aos Gregos" [Justino?], entre outros); durante a tradução eles não consultaram uns aos outros, pois foram mantidos em celas separadas - quer individuais, quer em duplas - e suas traduções, quando comparadas, estavam em perfeita concordância com o sentido e expressões empregadas no texto original e, inclusive, de umas com as outras ("Exortação aos Gregos", Santo Ireneu, São Clemente de Alexandria - São Jerônimo rejeitou o relato das celas isoladas afirmando que era fantasioso e falso (Praef. in Pentateuchum; Adv. Rufinum II, 25), bem como a alegada inspiração da Septuaginta); e, finalmente, de que os 72 intérpretes traduziram não apenas os cinco livros do Pentateuco mas todo o Antigo Testamento hebraico. A autenticidade da Carta, posta em dúvida primeiramente por Louis Vivès (1492-1540), professor em Louvain (Ad S. August. Civ. Dei XVIII, 42), e, depois, por Jos Scaliger (+1609) e, especialmente, por H. Hody (+1705) e Dupin (d. 1719), é atualmente negada por todos.
    Críticas
    1. A Carta de Aristéias é certamente apócrifa. O escritor, que chama a si mesmo de Aristéias e declara-se grego e pagão, mostra, no decorrer de toda a sua obra, que, na verdade, é um judeu piedoso e zeloso: ele reconhece o Deus dos judeus como o único Deus; ele declara que Deus é o autor da Lei Mosaica; ele é um admirador entusiástico do Templo de Jerusalém, da terra e do povo judeu e de suas leis sagradas e homens cultos.
    2. A narrativa da Carta deve ser considerada como fantasiosa e lendária, no mínimo em várias partes. Alguns detalhes, como a intervenção oficial do rei ao sumo-sacerdote, o número de 72 tradutores, as 72 questões que tiveram que responder e os 72 dias que levaram para traduzir a Lei são, claramente, afirmativas arbitrárias; além disso, é difícil de se admitir que os judeus alexandrinos tenham adotado para o seu culto público uma tradução da Lei feita a pedido de um rei pagão; finalmente, a linguagem da versão da Septuaginta denuncia, em vários pontos, um conhecimento imperfeito do hebraico e da topografia da Palestina, correspondendo muito mais ao idioma vulgar da Alexandria. Já que não é certo que todo o conteúdo da Carta seja lendário, os estudiosos questionam se não existe algum fundamento histórico disfarçado sob os detalhes lendários. Realmente isso pode ser possível - como se depreende da natureza peculiar da linguagem bem como sobre o que sabemos a respeito da origem e história da versão - já que o Pentateuco foi mesmo traduzido em Alexandria. Também parece verdadeiro que a versão date do tempo de Ptolomeu Filadélfo, isto é, de meados do séc. III a.C.. Mas se, como comumente se acredita, a Carta de Aristéias foi escrita por volta de 200 a.C., 50 anos após a morte de Filadélfo, com vistas a aumentar a autoridade da versão grega da Lei, poderia ter sido aceita tão facilmente e rapidamente difundida caso fosse fictícia ou se o tempo de sua composição não correspondesse à realidade? E mais: é possível que Ptolomeu tenha realmente alguma espécie de relacionamento com a preparação ou publicação da tradução, embora como e porque não possa ser determinado agora. Teria sido com o objetivo de enriquecer sua biblioteca, como declara o pseudo-Aristéias? Isto é possível, mas não pode ser provado, como será demonstrado abaixo; mas podemos muito bem descrever a origem da versão independentemente do rei.
    3. Os pequenos detalhes acrescidos durante o passar dos anos ao relato de Aristéias não podem ser aceitos; tais acréscimos são: a estória das celas (explicitamente rejeitada por São Jerônimo); a inspiração dos tradutores (uma opinião certamente baseada na lenda das celas); o número de tradutores (72 - v. abaixo); a afirmativa de que todos os livros hebraicos foram traduzidos ao mesmo tempo (Aristéias fala da tradução da Lei (nomos), da legislação (nomothesia), dos livros do legislador - estas expressões, especialmente as duas últimas, certamente se referem ao Pentateuco e excluem os outros livros do Antigo Testamento, e São Jerônimo (Comment. in Mich.) declara: "Josefo escreveu, e os hebreus nos informaram, que apenas os cinco livros de Moisés foram traduzidos por eles (os 72) e dados ao rei Ptolomeu". Por outro lado, as versões dos diversos livros do Antigo Testamento diferem muito no vocabulário, estilo, forma e características, às vezes seguem uma tradução livre, outras vezes, extremamente literal, o que demonstra que elas não seriam obra dos mesmos tradutores. Apesar disso e de todas as divergências, o nome de "versão da Septuaginta" é universalmente dado à coleção completa dos livros do Antigo Testamento existentes na Bíblia grega adotada pela Igreja oriental.
  2. Origem segundo o ponto de vista comumente aceito Como para o Pentateuco o seguinte ponto de vista parece plausível, podemos também aceitar em linhas gerais: os judeus, nos dois últimos séculos antes de Cristo, eram tão numerosos no Egito, especialmente em Alexandria, que, em certo momento, passaram a constituir 2/5 da população total. Pouco a pouco a maioria deles deixou de usar ou esqueceu a língua hebraica em grande parte, caindo no perigo de esquecer a Lei. Consequentemente, tornou-se costumeiro interpretar na língua grega a Lei que era lida nas sinagogas e, naturalmente, após certo tempo, alguns homens zelosos pela Lei resolveram compilar uma tradução grega do Pentateuco. Isto ocorreu por volta de meados do séc. III a.C.. Para os demais livros hebraicos - os proféticos e históricos - foi natural que os judeus alexandrinos, fazendo uso do Pentateuco traduzido em suas reuniões litúrgicas, desejassem também a tradução destes; então, gradualmente, todos os livros foram sendo traduzidos para o grego, que se tornara a língua maternal destes judeus; tal exigência aumentava conforme o seu conhecimento de hebraico ia reduzindo dia a dia. Não é possível determinar com precisão o tempo ou os eventos que levaram a estas diferentes traduções; mas é certo que a Lei, os Profetas e, ao menos, parte dos outros livros (i.é, os Hagiógrafos) existiam antes do ano 130 a.C., como aparece no prólogo do Eclesiástico, que não data abaixo deste ano. É difícil determinar também onde as diversas traduções foram feitas pois as informações são muito escassas. A julgar pelas palavras e expressões egípcias que ocorrem na versão, a maioria dos livros deve ter sido traduzida no Egito, muito provavelmente na Alexandria. Ester, entretanto, foi traduzido em Jerusalém (XI, 1). Quem e quantos eram os tradutores? Existe algum fundamento para o número de 72, como declara a lenda (Brassac-Vigouroux, nº 105)? Parece impossível responder essas questões; os talmudistas dizem que o Pentateuco foi traduzido por cinco intérpretes (Sopherim, c.1.). A história não nos oferece outros detalhes, mas um exame do texto mostra que, em geral, os autores não eram judeus palestinenses enviados ao Egito; diferenças de terminologia, método etc. provam claramente que os tradutores não eram os mesmos para os diferentes livros. É impossível também dizer se a obra foi executada oficial ou privativamente, como parece ser o caso de Eclesiástico; contudo, os diferentes livros, após traduzidos e dispostos em conjunto (o autor de Eclesiástico conhecia a coleção), foi recebida como oficial pelos judeus de língua grega.

3. História Subseqüente

Recensões
A versão grega, conhecida como Septuaginta, foi bem acolhida pelos judeus alexandrinos, que logo a difundiu pelas nações onde o grego era falado; foi usada por diferentes escritores e suplantou o texto original nas cerimônias litúrgicas. Filo de Alexandria a utilizou em seus escritos e considerava os tradutores profetas inspirados; finalmente, ela foi acolhida pelos judeus da Palestina e foi notavelmente empregada por Josefo, historiador judeu palestinense. Sabemos também que os escritores do Novo Testamento fizeram uso dela, utilizando-a na maioria de suas citações. Ela tornou-se o Antigo Testamento da Igreja e foi altamente estimada pelos cristãos primitivos, de modo que muitos escritores e padres declararam-na inspirada. Os cristãos recorriam à ela constantemente em suas controvérsias com os judeus; estes logo reconheceram suas imperfeições e, finalmente, a rejeitaram em favor do texto hebraico ou de traduções mais literais (Áquila e Teodocião).
 

Correções críticas de Orígenes, Luciano e Hesíquio
Em razão de sua difusão entre os judeus helenizantes e cristão primitivos, as cópias da Septuaginta passaram a se multiplicar e, como seria de se esperar, muitas alterações - algumas propositais, outras involutárias - foram surgindo. Logo sentiu-se a necessidade de restaurar o texto à sua pureza original. Eis um brevíssimo relato das tentativas de correção:

  1. Orígenes reproduziu o texto da Septuaginta na quinta coluna de sua Hexápla. Marcou com obeli os textos que ocorriam na Septuaginta e que não se encontravam no original; adicionou de acordo com a versão de Teodocião e distinguiu com asteriscos e metobeli os textos do original que não se encontravam na Septuaginta; adotou das variantes da versão grega os textos que eram mais próximos ao hebraico; e, finalmente, transpôs o texto onde a ordem da Septuaginta não correspondia à ordem do texto hebraico. Sua recensão, copiada por Pânfilo e Eusébio, foi chamada de Hexápla para distingui-la da versão previamente empregada, chamada comum, vulgar, koiné ou antehexápla. Foi adotada na Palestina.
  2. São Luciano, sacerdote de Antioquia e mártir, no início do séc. IV, publicou uma edição corrigida de acordo com o hebraico; tal edição reteve o nome de koiné, edição vulgar, e, às vezes, é chamada de Loukianos após o nome de seu autor. No tempo de São Jerônimo, estava sendo usada em Constantinopla e Antioquia.
  3. Finalmente, Hesíquio, um bispo egípcio, publicou, quase que ao mesmo tempo, uma nova recensão, difundida principalmente no Egito.

Manuscritos
Os três manuscritos mais conhecidos da Septuaginta são: o Vaticano (Codex Vaticanus), do séc. IV; o Alexandrino (Codex Alexandrinus), do séc. V, atualmente no Museu Britânico de Londres; e o do Monte Sinai (Codex Sinaiticus), do séc. IV, descoberto por Tischendorf no convento de Santa Catarina, no Monte Sinai, em 1844 e 1849, sendo que parte se encontra em Leipzig e parte em São Petersburgo. Todos foram escritos em unciais. O Codex Vaticanus é o mais puro dos três; é geralmente tido como o texto mais antigo, embora o Codex Alexandrinus carregue consigo o texto da Hexápla e tenha sido alterado segundo o texto massorético. O Codex Vaticanus é referido pela letra B; o Codex Alexandrinus, pela letra A; e o Codex Sinaiticus, pela primeira letra do alfabeto hebraico (aleph) ou S. A Biblioteca Nacional de Paris possui também um importante palimpsesto manuscrito da Septuaginta, o Codex Ephraemirescriptus (designado pela letra C) e dois manuscritos de menor valor (64 e 114), em cursivas, um pertencente ao séc. X ou XI e o outro, ao séc. XIII (Bacuez e Vigouroux, 12ª ed., nº 109).

Edições Impressas
Todas as edições impressas da Septuaginta são derivadas das três recensões acima citadas.

  • A Editio Princeps é a da Complutensiana ou de Alcalá. Provém da Hexápla de Orígenes. Impressa em 1514-18, não foi publicada até aparecer na Poliglota do card. Ximenes, em 1520.
  • A edição Aldine (iniciada por Aldo Manúcio) apareceu em Veneza em 1518. O texto é mais puro que a edição Complutensiana e está mais próxima do Códice B. O editor diz que colecionou manuscritos antigos mais não os especifica. Foi reimpressa várias vezes.
  • A mais importante edição é a Romana ou Sixtina, que reproduz quase que exclusivamente o Codex Vaticanus. Foi publicada sob a direção do card. Caraffa, com o auxílio de vários sábios, em 1586, sob a autoridade de Sixto V, com o objetivo de socorrer os revisores que preparavam a nova edição da Vulgata latina ordenada pelo Concílio de Trento. Tornou-se, assim, o textus receptus do Antigo Testamento grego e teve diversas novas edições, tais como a de Holmes e Pearsons (Oxford, 1798-1827), as sete edições de Tischendorf, que apareceram em Leipzig entre 1850 e 1887 (as duas últimas publicadas após a morte do autor e revisadas por Nestle), as quatro edições de Swete (Cambridge, 1887-95, 1901, 1909), etc.
  • A edição de Grabe, publicada em Oxford de 1707 a 1720, reproduzindo, imperfeitamente, o Codex Alexandrinus de Londres.

Para edições parciais, v. Vigouroux, "Dicionário da Bíblia", pp. 1643ss.

4. Valor Crítico e Linguagem

Valor Crítico
A versão da Septuaginta, embora ofereça exatamente em forma e substância o verdadeiro sentido dos Livros Sagrados, difere consideravelmente do atual texto hebraico (Massorético). Essas discrepâncias, porém, não são de grande importância, mas apenas assunto de interpretação. Podem ser assim classificadas: algumas são oriundas dos tradutores que tiveram à sua disposição recensões hebraicas diferentes daquelas que são conhecidas como massoréticas; às vezes os textos variam, outras vezes, os textos são idênticos, mas lidos em ordem diferente. Outras discrepâncias devem-se à personalidade dos tradutores; para não se falar da influência exercida em suas obras em razão de seus métodos de interpretação, as dificuldades inerentes da tarefa, seus maiores ou menores conhecimentos de grego e hebraico: eles acabaram traduzindo diferentemente dos massoretas justamente porque liam os textos de forma diferente; é pois natural que o hebraico, escrito em caracteres quadrados, e certas consoantes bem similares na forma fossem vez ou outra confundidos, ocasionando erros de tradução; mais: o texto hebraico era escrito sem qualquer espaçamento entre as palavras e os tradutores facilmente poderiam confundir a separação das palavras; finalmente, como o texto hebraico não dispunha de vogais, eles poderiam suprir as palavras com vogais diversas daquelas que foram usadas mais tarde pelos massoretas. Novamente, não devemos achar que possuímos atualmente o exato texto grego como foi escrito pelos tradutores; as freqüentes transcrições feitas durante os primeiros séculos, assim como as correções e edições de Orígenes, Luciano e Hesíquio danificaram a pureza do texto: voluntária ou involuntariamente, os copistas permitiram a ocorrência de muitas corrupções textuais, transposições, adições e omissões no texto primitivo da Septuaginta. Em particular, podemos notar a adição de passagens paralelas, notas explanatórias ou traduções duvidosas causadas pelas notas marginais. A este respeito, v. "Dicionário da Bíblia" art. cit., e Swete, "Uma Introdu ção ao Antigo Testamento em Grego".

Linguagem
Todos admitem que a versão da Septuaginta foi redigida em grego popular, a koine dislektos. Mas o grego do Antigo Testamento era um idioma especial? Muitas autoridade garantem que sim, embora discordem quanto à sua real característica. O "Dicionário da Bíblia", em seu verbete "Grego bíblico", assegura que era "o grego hebraizante falado pela comunidade judaica de Alexandria", o grego popular de Alexandria "com uma larga mistura de hebraísmos". O mesmo dicionário, no verbete "Septante", menciona a mais recente opinião de Deissmann de que o grego da Septuaginta é meramente o grego vernacular ordinário, a pura koine daquela época. Deissmann baseia sua teoria na semelhança perfeita da linguagem da Septuaginta com a dos papiros e inscrições do mesmo período; ele acredita que as peculiaridades sintáticas da Septuaginta, que a princípio parecem favorecer a teoria de uma linguagem especial (um grego hebraicizado), são suficientemente explicadas pelo fato da Septuaginta ser a tradução grega de livros hebraicos.

A aceitação do cânon amplo da LXX na Palestina do século I

Não é incomum ouvirmos o seguinte argumento protestante:

"A Septuaginta e os livros 'apócrifos' nunca foram aceitos ou usados pelos judeus na Judéia do primeiro século"


No entanto, partes da Septuaginta foram encontradas na Judéia, entre os manuscritos do Mar Morto, sendo anteriores ao ano 70 d.C.. Alguns exemplares foram encontrados na caverna 4 (119LXXLev.; 120papLXXLev.; 121 LXXNum.; 122LXXDeut.). Há também um texto não identificado da Septuaginta grega, encontrado na caverna 9 (Q9).
Em acréscimo a esses fragmentos, existe um fragmento de papiro, escrito em grego, encontrado na caverna 7 (LXXExod.). A caverna 7 produziu ainda muitos pequenos fragmentos em grego (da Septuaginta), cujas identificações permanecem em discussão ou sem classificação. O dr. Emanuel Tov sugere as seguintes identificações para alguns destes fragmentos gregos do primeiro século antes de Cristo:
7Q4. Números 14,23-24;
7Q5. Êxodo 36,10-11; Números 22,38;
7Q6. 1 Salmo 34,28; Provérbios 7,12-13;
7Q6. 2 Isaías 18,2
7Q8. Zacarias 8,8; Isaías 1,29-30; Salmo 18,14-15; Daniel 2,43; Eclesiastes 6,3.
No meio destas porções da Septuaginta, foram encontrados manuscritos parciais contendo alguns termos dos livros "apócrifos":

4Q478 [Tobias], 4Q383 e 7QLXXEpJer. [Epístola de Jeremias], para citar apenas alguns.

É importante notar que nas cavernas de Qumran (de onde provêm os "manuscritos do Mar Morto"), foi encontrada uma cópia do livro do "Eclesiástico" na língua hebraica [manuscrito 2QSir.], bem como um fragmento de "A História de Suzana" (correspondente ao capítulo 13 do livro de Daniel), também em hebraico [manuscrito 4Q551]. Já na caverna 4 de Qumran, foram encontrados fragmentos do livro "apócrifo" de Tobias, nas línguas aramaica [manuscrito 4Q196-9] e hebraica [manuscrito 4Q200].
Deve-se observar, também, que as cavernas de Qumran não são o único lugar na Judéia em que se encontraram livros "apócrifos". Outro exemplo é a cópia do livro do "Eclesiástico" (ou "A Sabedoria do Filho de Sirá"), em hebraico, encontrada nas ruínas de Massada. Este fragmento manuscrito data do início do século I a.C..
Alguns, porém, poderão argumentar que:

"Os ebionitas (ou seita de Qumran) eram um grupo estranho, que nunca veio a fazer parte do ramo principal do judaísmo"

Mas se lermos o Novo Testamento, verificaremos que naquele tempo não existia nenhum "ramo principal do judaísmo", como, ao contrário, existe hoje. Nesse sentido, explica o pesquisador protestante dr. Martin Abegg:

"Tanto no judaísmo moderno quanto no cristianismo, uma 'seita' é, geralmente, um ramo de um tronco religioso maior e é freqüentemente vista com excêntrica ou desviada nas suas crenças. Mas os pesquisadores e leigos deveriam recordar que durante todo o período de existência de Qumran, os fariseus e os saduceus eram 'seitas', assim como eram os essênios! Foi apenas a partir do século II d.C. que passou a se formar um tipo de judaísmo - aquele dos fariseus, dos rabis - que veio a se tornar padrão para o povo judeu como um todo.
Tais matérias são de menor importância se comparadas com os manuscritos bíblicos. Primeiro, porque todos os pesquisadores concordam que nenhum dos textos bíblicos (tais como Gênese ou Isaías) foi composto em Qumran; ao contrário, todos eles se originaram antes do período de Qumran. Também é aceito que muitos ou a maioria desses manuscritos foram trazidos de fora para Qumran e, depois, aí reproduzidos. Isto significa que o valor da maioria dos manuscritos bíblicos enganam, não em estabelecer precisamente onde foram escritos ou copiados, mas especificamente quanto ao estudo das formas textuais que encerram" [The Dead Sea Scrolls Bible (=A Bíblia nos Manuscritos do Mar Morto), (C) 1999, pg. XVI]

Encontramos um bom exemplo do uso da Septuaginta (a qual contém os "apócrifos") entre os judeus da Judéia quando lemos os capítulos 6 e 7 dos Atos dos Apóstolos. Aí lemos que Santo Estêvão, cheio do Espírito Santo (At. 6,10), foi levado ao Sinédrio pela multidão (At. 6,12); Estêvão, então, se dirigiu aos judeus e contou-lhes como Jacó trouxe seus 75 descendentes para o Egito:

Atos 7,14-15: "Então José mandou buscar Jacó, seu pai, e toda sua parentela, em número de setenta e cinco pessoas. Desceu Jacó para o Egito e aí morreu, ele e também nossos pais".

Mas os manuscritos hebraicos nos dizem que Jacó trouxe 70 descendentes para o Egito (cf. Gên. 46,26-27; o texto hebraico também recorda "70" em Deut. 10,22 e Ex. 1,5). Ora, o Sinédrio judaico e os sacerdotes bem sabiam que Deut. 4,2; 12,32; Sal. 12,6-7 e Prov. 30,6 proíbem que se acrescente ou retire algo da Palavra de Deus. Com efeito, por que o Sinédrio e os sacerdotes não se escandalizaram com a afirmativa feita por Estêvão, de que Jacó trouxera 75 descendentes? Por que não o acusaram de "perverter a Escritura"? Quando lemos esses versículos, notamos que os judeus pareciam nem mesmo piscar. Em ponto algum desta passagem encontramos qualquer sugestão de que a raiva nutrida pelos judeus contra Estêvão havia se originado de uma possível "perversão das Escrituras". Ao contrário, eles mataram Estêvão porque foram por este confrontados com a pessoa do Senhor Jesus - que era realmente o Cristo, e, ao contrário de ser por eles recebido, foi assassinado do mesmo modo que seus predecessores, os profetas (At. 7,51-53)!
A explicação para a discrepância numérica na história de Jacó narrada por Estêvão é simples: ele está citando Gênese (46,26-27) a partir da versão grega da Septuaginta, a qual possui cinco nomes a mais (total de 75 nomes) que o texto massorético hebraico. Os cinco nomes que faltam no texto hebraico foram preservados na Septuaginta, em Gên. 46,20, onde Makir, filho de Manassés, e Makir, filho de Galaad (=Gilead, no hebraico), são apontados, posteriormente, como os dois filhos de Efraim, Taam (=Tahan, no hebraico) e Sutalaam (Shuthelah, no hebraico) e seu filho Edon (Eran, no hebraico).
O Sinédrio certamente teria contestado a afirmação de Estêvão se a Septuaginta não fosse usada ou aceita pelos judeus da Judéia. Com efeito, o fato de a Septuaginta ter sido encontrada entre os manuscritos do Mar Morto bem demonstra que esse era o caso.
Sendo, pois, uma realidade que ambas as versões (a Septuaginta e a hebraica) eram de uso comum na Judéia do primeiro século, o Sinédrio não se surpreendeu ou se escandalizou com a declaração de Estêvão. Afinal, o fato de serem 70 ou 75 o número de descendentes de Jacó não se revelava doutrina importante para os judeus e, ao que parece, também havia muitos judeus no outro lado da questão.



Eis alguns dos papiros e manuscritos primitivos da Septuaginta:

Século II a.C.:

1. 4QLXXDeut [#819] (rolo em pergaminho, Deut. 11)("couro");
2. PRyl 458 [#957 = vh057] (rolo em papiro, Deut. 23-28).

Séculos II/I a.C.

3. 7QLXXEx [#805 = vh038] (rolo em papiro, Ex. 28);
4. 4QLXXLev\a [#801 = vh049] (rolo em pergaminho, Lev. 26) ("couro");
5. 7QLXX EpJer [#804 = vh312] (rolo em papiro, EpJer/Bar6);
6. 7Q4, 7Q8, 7Q12 (rolo em pergaminho, Epístola de Enoque = "1Enoque" 103).

Século I a.C.

7. 4Q127 (rolo em papiro, paráfrase grega de Êxodo?);
8. PFouad266a [#942] (rolo em papiro, Gên.);
9. 4QLXXLev\b [#802 = vh046] (rolo em papiro, Lev. 2-5);
10. PFouad 266b [#848 = vh56] (rolo em papiro, Deut. 17-33);
11. PFouad 266c [#847 = vh56] (fins do séc. I a.C., rolo em papiro, Deut. 10-33).

Entre Eras a.C. e d.C

12. 4QLXXNu [#803 = vh051] (rolo em pergaminho, Núm. 3-4).

Século I d.C.

13. POxy 3522 [#??] (rolo em papiro, Jó grego 42).

Séculos I/II d.C.

14. POxy 4443 [#??] (rolo em papiro, Ester grego, Est. 8-9); 15. PBodl 5 [#2082] (código em pergaminho, Salmo grego, Sal. 48-49).

Palavra de Deus = Bíblia + Tradição + Magistério

Desde o princípio, Deus fala com sua Igreja através da Bíblia e da Sagrada Tradição. Para garantir que sejam compreendidas por nós, Deus guia a autoridade de ensino da Igreja - o Magistério - para que esta possa interpretar perfeitamente a Bíblia e a Sagrada Tradição. Eis a dádivá da infalibilidade! Esses três elementos - a Bíblia, a Sagrada Tradição e o Magistério - são todos necessários para que haja a estabilidade da Igreja e para garantir a segurança da doutrina.

  1. A Sagrada Tradição (Catec.Igr.Cat. 75-83)
    A Sagrada Tradição não deve ser confundida com a simples tradição humana, geralmente chamada de costume ou disciplina. Algumas vezes Jesus condenou os costumes ou disciplinas, mas somente quando estes contradiziam os Mandamentos de Deus (cf. Mc 7,8). Jesus nunca condenou a Sagrada Tradição e nem todas as tradições humanas.
    A Sagrada Tradição e a Bíblia não são diferentes, nem são revelações concorrentes. Na verdade, são dois modos de como a Igreja segue o Evangelho. Os ensinamentos apostólicos como a Santíssima Trindade, o batismo das crianças, a infalibilidade da Bíblia, o purgatório e a virgindade perpétua de Maria têm sido, de forma muito clara, demonstrada pela Sagrada Tradição, ainda que estejam implicitamente presentes (e não em contradição) na Bíblia. A própria Bíblia nos remete à Tradição, tanto na forma oral quanto escrita (cf. 2Ts 2,15; 1Cor 11,2).
    Como dissemos, a Sagrada Tradição não deve ser confundida com os costumes e as disciplinas, como o rosário, o celibato sacerdotal e a proibição de comer carne nas sextas-feiras da Quaresma; tais costumes são bons e úteis, mas não doutrinas. A Sagrada Tradição preserva as doutrinas pregadas por Jesus primeiro aos seus Apóstolos e, mais tarde, repassadas aos sucessores dos Apóstolos, isto é, aos bispos.
  2. As Sagradas Escrituras (Catec.Igr.Cat. 101-141)
    As Sagradas Escrituras, que englobam o Antigo e o Novo Testamento, foram inspiradas por Deus (2Tm 3,16). Foi o Espírito Santo que guiou os autores bíblicos a escreverem aquilo que Ele desejava revelar. Já que Deus é o principal autor da Bíblia e Deus é Verdade (cf. Jo 14,6), não pode Ele ensinar algo errado e, assim, a Bíblia está isenta de qualquer erro, em tudo que ela defende como Verdade.
    Alguns cristão dizem: "A Bíblia é tudo do que preciso", contudo, tal afirmativa não se encontra na própria Bíblia. Na verdade, a Bíblia ensina justamente o contrário, como lemos em 2Pd 1,20-21 e 2Pd 3,15-16). Além disso, a teoria de que "somente a Bíblia basta" nunca foi professada pela Igreja primitiva.
    Trata-se, assim, de um conceito novo, surgido durante a Reforma Protestante do séc. XVI. Tal teoria é "tradição dos homens" que anula a Palavra de Deus, distorcendo a verdadeira regra bíblica e excluindo a autoridade da Igreja estabelecida por Jesus (cf. Mc 7,1-8).
    Ainda que seja popular em muitas igrejas cristãs, a teoria de que "somente a Bíblia basta" simplesmente não funciona na prática. A experiência histórica desaprova essa idéia pois a cada ano vemos surgir mais e mais religiões, cada qual com uma interpretação bíblica diferente.
    Existem hoje dezenas de milhares de denominações, cada qual afirmando que sua interpretação particular da Bíblia é a correta. As divisões que geram causam confusões indescritíveis entre milhões de cristãos sinceros, mas desorientados.
    [Para se ter uma idéia,] basta abrir as páginas amarelas da lista telefônica para verificarmos quantas denominações diferentes estão catalogadas, cada uma dizendo que "somente a Bíblia basta", mas nenhuma concordando exatamente com a interpretação bíblica de todas as demais.
    Porém, podemos ter a certeza de uma coisa: o Espírito Santo não pode ser o autor de toda essa confusão (cf. 1Cor 14,33). Deus não pode conduzir as pessoas através de crenças contraditórias já que a Verdade é uma só. Que conclusão podemos então tirar? De que a teoria que diz que "somente a Bíblia basta" [para o cristão] é falsa.
  3. O Magistério (Catec.Igr.Cat. 85-87; 888-892)
    Juntos, o papa e os bispos compõem a autoridade de ensino da Igreja, que é chamada de "Magistério" (do latim Magisterium que significa Mestre). O Magistério, guiado e protegido contra o erro pelo Espírito Santo, nos dá a certeza da doutrina. A Igreja defenda e proclama a mensagem da Bíblia fiel e precisamente. Trata-se de uma tarefa da Igreja, autorizada por Deus.
    Devemos ter em mente que a Igreja nasceu antes da redação do Novo Testamento; e não o inverso! Os membros da Igreja, inspirados por Deus, escreveram os livros que formam o Novo Testamento da mesma maneira como os escritores do Antigo Testamento também eram divinamente inspirados; e é a Igreja que é guiada pelo Espírito Santo para guardar e interpretar toda a Bíblia, tanto o Novo quanto o Antigo Testamento.
    Assim, torna-se absolutamente necessário um intérprete oficial quando precisamos compreender a Bíblia apropriadamente (ora, todos nós sabemos o que diz a Constituição Federal, porém, cabe ao Supremo Tribunal Federal interpretá-la realmente).
    O Magistério é infalível quando ensina oficialmente já que Jesus prometeu enviar o Espírito Santo para guiar os Apóstolos e seus sucessores no conhecimento de toda a Verdade (cf. Jo 16,12-13).

Defendendo os deuterocanônicos

Quando católicos e protestantes falam sobre a Bíblia, os dois grupos atualmente possuem dois livros diferentes
No século 16, os reformadores protestantes removeram uma parte do Antigo Testamento que não era compatível com a sua teologia. Diziam que estes livros não eram inspirados e os chamaram de "apócrifos".
Os católicos se referem a eles como "deuterocanônicos" (pois foram disputados por alguns autores e sua canonicidade foi estabelecida mais tarde que o resto), enquanto que os demais livros são chamados de "protocanônicos" (sua canonicidade foi estabelecida primeiro).
Seguindo o argumento protestante sobre a integridade da Bíblia, a Igreja Católica reafirmou a inspiração divina dos livros deuterocanônicos no Concílio de Trento em 1546. Fazendo isto, ela reafirmou o que já havia sendo crido desde os tempos primitivos.


Quem organizou o Antigo Testamento?
A Igreja não nega que aqui existem alguns livros que são realmente "apócrifos". Durante a era da igreja primitiva, existiam manuscritos que supunham ser inspirados, mas não eram. Muitos chegaram até nós, como o "Apocalipse de Pedro" e o "Evangelho de Tomé", cujas igrejas cristãs rejeitaram como não pertencendo às Escrituras.
Durante o primeiro século, os judeus discordavam sobre a constituição do cânon das Escrituras. De fato, havia muitos "cânons" sendo usados, incluindo livros usados por cristãos. Para combater a disseminação do rito cristão, os rabinos se encontraram na cidade de Jâmnia em 90 d.C. para determinar quais os livros que continham as verdadeiras palavras de Deus. Pronunciaram-se afirmando que muitos livros, incluindo os Evangelhos, eram impróprios para serem considerados Escritura Sagrada. Este cânon também excluiu 7 livros (Baruc, Sirácida, 1 e 2 Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, e algumas porções de Daniel e Esther) que os cristãos consideravam como parte do Antigo Testamento.
O grupo de judeus que estavam em Jâmnia tornou-se o grupo dominante no decorrer da história judaica, e hoje muitos judeus aceitam tal cânon. Entretanto, alguns judeus, como os da Etiópia, seguiam um cânon diferente, e idêntico ao cânon Católico do Antigo Testamento, pois incluíam os sete livros deuterocanônicos (cf. Enciclopédia Judaica, vol 6, p. 1147).
Não é necessário dizer que a Igreja não aderiu ao resultado de Jâmnia. Primeiro, um Concílio judaico após a época de Cristo não guarda ligações com os seguidores de Cristo. Segundo, Jâmnia rejeitou precisamente os documentos que constituíam a base da Igreja Cristã - os Evangelhos e outros documentos do Novo Testamento. Terceiro, rejeitando os deuterocanônicos, Jâmnia rejeitou livros que foram usados por Jesus e os apóstolos e que estavam contidos na edição da Bíblia que os apóstolos usaram no dia-a-dia - a Septuaginta.

Os apóstolos e os deuterocanônicos
A aceitação pelos cristãos dos deuterocanônicos era lógica porque estes estavam incluídos na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento que os apóstolos usaram para evangelizar. Dois terços das citações do Antigo Testamento no Novo são oriundos da Septuaginta. Em nenhuma parte os apóstolos falaram aos seus discípulos ou convertidos para evitar estes sete livros ou alguma doutrina contida nele. Assim como os judeus pelo mundo que usam a versão da Septuaginta, os primeiros cristãos aceitaram os livros encontrados nela. Sabiam que os apóstolos não iriam engana-los ou arriscar suas almas colocando falsas Escrituras em suas mãos - especialmente não os avisando contra isto.
Mas os apóstolos não colocaram os deuterocanônicos nas mãos de seus convertidos simplesmente como parte da Septuaginta. Eles regularmente citavam-nos em seus escritos. Por exemplo, Hebreus 11 nos encoraja a imitar os heróis do Antigo Testamento e no Antigo Testamento "mulheres houve, até, que receberam ressuscitados os seus mortos. Alguns foram torturados, rejeitados, não querendo o seu resgate, para alcançarem melhor ressurreição" (Hb 11,35).
Existem alguns exemplos de mulheres recebendo de volta seus mortos pela ressurreição no Antigo Testamento protestante. Você pode achar Elias ressuscitando o filho da viúva de Sarepeta em 1 Reis 17, e você pode achar seu sucessor Eliseu ressuscitando o filho da mulher sunamita em 2 Reis 4, mas uma coisa não se poderá achar - em nenhum lugar no Antigo testamento protestante, do começo ao fim, de Gênesis a Malaquias - alguém é torturado e rejeita o seu resgate para alcançarem melhor ressurreição. Querendo achar tal fato, deve procurar no Antigo Testamento da Bíblia católica - justamente nos livros deuterocanônicos que Martinho Lutero Retirou de sua Bíblia.
Esta história é encontrada em 2 Mac 7, onde lemos que durante a perseguição dos Macabeus, "Aconteceu também que, tendo sido presos sete irmãos com sua mãe, o rei os queria obrigar a comer carne de porco contra a lei...os outros irmãos exortavam-se mutuamente com sua mãe, a morrerem corajosamente, dizendo: 'O Senhor Deus vê e consola-se em nós'...Morto deste modo o primeiro, levaram o segundo ao suplício...respondendo na língua dos seus pais, disse: Não! Pelo que este também padeceu os mesmos tormentos que o primeiro. Estando já para dar o último suspiro, disse desta maneira: 'tu ó malvado, faze-nos perder a vida presente, mas Deus, o Rei do universo, nos ressuscitará para a vida eterna, a nós que morremos, por fidelidade às suas leis" (2 Mac 7,1.5-9).
Os filhos morreram um por um, proclamando que eles serão recompensados pela ressurreição. "Entretanto a mãe deles, sobremaneira admirável e digna de memória, vendo morrer os seus sete filhos em um só dia, suportou heroicamente a sua morte, pela esperança que tinha no Senhor. Cheia de nobres sentimentos, exortava, na língua dos seus pais, a cada um deles em particular, dando firmeza... Dizia-lhes: 'não sei como fostes formados em meu ventre; não fui eu quem vos deu o espírito e a vida, ou que formei os membros do vosso corpo. O criador do mundo, que formou o homem no seu nascimento e deu a origem a todas as coisas, vos tornará a dar o espírito e a vida, por sua misericórdia, em recompensa do quanto agora vos desprezais a vós mesmos, por amor das suas leis", Diz o último irmão, "Não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos, aceita a morte, para que eu te encontre com eles no dia da misericórdia" (2 Mac 7,20-23.29).
Este é uma das referências do Novo Testamento aos deuterocanônicos. Os primeiros cristãs reconheciam amplamente estes livros como Escrituras Sagradas, não somente porque os apóstolos os colocaram em suas mãos, mas porque também se referiram a eles no próprio Novo Testamento, citando o que recordavam como exemplos a serem seguidos.

Os Pais falam
A aceitação dos deuterocanônicos é evidente ao longo da história da Igreja. O historiador protestante J.N.D. Kelly escreve:

"Deveria ser observado que o Antigo Testamento admitido como autoridade na Igreja era algo maior e mais compreensivo que o Antigo Testamento protestante...ela sempre incluiu, com alguns graus de reconhecimento, os chamados apócrifos ou deuterocanônicos. A razão para isso é que o Antigo Testamento que passou em primeira instância nas mãos dos cristãos era... a versão grega conhecida como Septuaginta... a maioria das citações nas Escrituras encontradas no Novo Testamento são baseadas nelas preferencialmente do que a versão hebraica... nos primeiros dois séculos... a Igreja parece ter aceitado a todos, ou a maioria destes livros adicionais, como inspirados e trataram-nos sem dúvida como Escritura Sagrada. Citações de Sabedoria, por exemplo, ocorrem em 1 Clemente e Barnabé... Policarpo cita Tobias, e o Didache cita Eclesiástico. Irineu se refere a Sabedoria, a história de Susana, Bel e o dragão (livro de Daniel), e Baruc. O uso dos deuterocanônicos por Tertuliano, Hipólito, Cipriano e Clemente de Alexandria é tão freqüente que referências detalhadas são necessárias" (Doutrina Cristã Antiga, 53-54).

O reconhecimento dos deuterocanônicos como parte da Bíblia dada pessoalmente pelos pais também foi conferida por esses mesmos pais como uma regra, quando se encontravam nos Concílios da Igreja. Os resultados dos Concílios são especialmente úteis porque não representam a visão de uma só pessoa, mas o que fora aceito pelos líderes da Igreja de todas as regiões.
O cânon das Escrituras, Antigo e Novo Testamento, foi fixado definitivamente no Concílio de Roma em 382, sob a autoridade do Papa Damaso I. E foi logo reconhecido por sucessivos Concílios, tanto regionais como gerais. O mesmo cânon foi firmado no Concílio de Hipona em 393 e no de Cartago em 397. O fato destes Concílios não serem "ecumênicos" não rejeita o fato de suas decisões não serem aceitos como baseadas em verdade de fé. Em 405 o Papa Inocêncio I reafirmou o cânon em uma carta ao bispo Exuperius de Toulouse. Outro Concílio de Cartago, este no ano de 419, reafirmou o cânon como os seus predecessores e pediu ao papa Bonifácio que "confirme este cânon, pois estas são as que recebemos de nossos pais para serem lidos na Igreja". Todos estes canos formavam a mesma Bíblia católica atual, todos eles incluindo os deuterocanônicos.
Este mesmo cânon foi implicitamente confirmado no sétimo Concílio Ecumênico, o de Nicéia II (787), que aprovou os resultados do Concílio de Cartago de 419, e explicitamente reafirmou nos Concílios Ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546), Vaticano I (1870) e Vaticano II (1965).

As acusações protestantes
Os deuterocanônicos mostram doutrinas da Igreja Católica, e por esta razão eles foram retirados do Antigo Testamento por Lutero e colocados como apêndice sem números de páginas! Lutero também retirou livros do Novo Testamento - Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse - e os colocou como apêndice, sem páginas, da mesma forma que os outros. Estes foram mais tarde recolocados de volta no Novo Testamento por outros protestantes, mas os 7 livros do AT foram deixados. Em 1827, o British and Foreign Bible Society retirou também este apêndice, sendo este o motivo pelo qual não são encontrados nas Bíblias protestantes mais contemporâneas, apesar de ainda serem encontradas em traduções protestantes clássicas, como a King James Version.
A razão porque eles foram retirados é que ensinam doutrinas católicas que os protestantes rejeitam. Acima citamos um exemplo onde a carta aos Hebreus nos mostra um exemplo do Antigo Testamento contido em 2 Mac 7, um incidente não encontrado em nenhuma Bíblia protestante, mas facilmente localizada na Bíblia católica. Porque Lutero teria retirado este livro se ele claramente serviu de fonte para aquela parte do Novo Testamento? Simples: alguns capítulos mais adiante o livro apóia a prática da oração às almas dos mortos para que sejam purificados das conseqüências dos seus pecados (2 Mac 12,41-45); em outras palavras, a doutrina católica do purgatório. Desde que Lutero rejeitou o ensino histórico do purgatório (que data de antes de Cristo, como mostra o livro de Macabeus), ele teve que retirar este livro da Bíblia e coloca-lo como apêndice. (Note que ele também retirou Hebreus, o livro que cita 2 Macabeus, e o colocou também como apêndice)
Para justificar esta rejeição a livros que estavam na Bíblia desde tempos antes dos apóstolos (a Septuaginta foi escrita antes dos apóstolos), os primeiros protestantes recorreram ao fato de que os judeus daqueles dias não honraram tais livros, retornando assim ao Concílio de Jâmnia. Mas os reformadores estavam atentos apenas aos judeus europeus; não prestando a devida atenção aos judeus africanos, como os etíopes, que aceitavam os deuterocanônicos como parte de sua Bíblia. Eles censuraram as referências ao deuterocanônicos no Novo Testamento, assim como seu uso da Septuaginta. Ignoraram o fato de que existiam múltiplos cânnos judaicos circulando no primeiro século, apelando a um Concílio judaico pós-cristão que não possuía nenhuma autoridade para com os cristãos para se falar que "os judeus não aceitaram estes livros". Na verdade, foram longe tentar buscar algo que suportasse a rejeição a estes livros da Bíblia.

Reescrevendo a história da Igreja
Anos mais tarde eles até iniciaram a propagação do mito de que a Igreja Católica "adicionou" estes sete livros à Bíblia no Concílio de Trento.
Os protestantes também tentaram distorcer as evidências patrísticas em favor do deuterocanônicos. Alguns superficialmente afirmam que os Pais da Igreja não os aceitavam, enquanto outros fazem reivindicações comedidas que certos importantes pais, como Jerônimo, também não os aceitava.
É verdade que Jerônimo, e poucos e isoladas escritores, não aceitavam alguns deuterocanônicos como inspirados. Entretanto, Jerônimo fora persuadido, contra sua convicção original, a incluir os deuterocanônicos em sua edição Vulgata pelo fato de que os livros eram comumente aceitos e era esperado que fossem incluídos em todas as edições da Bíblia.
Além do mais, deve ser documentado que em anos mais tarde Jerônimo de fato aceitou certos deuterocanônicos como inspirados. Em sua resposta a Rufino, ele defendeu bravamente as partes deuterocanônicas de Daniel mesmo que os judeus de seu tempo não o fizessem.
Ele escreveu, "Que pecado eu cometi se segui o julgamento da Igreja? Mas ele que traz acusações contra mim por relatar as objeções a que os judeus estavam acostumados a formar contra a história de Susana... e a história de Bel e o dragão, que não se acham nos volumes hebraicos, provam que ele é apenas um bajulador insensato. Eu não estava relatando minha própria visão, mas antes as questões que eles (os judeus) estavam acostumados a fazer contra nós" (Contra Rufinus 11,33 [402 d.C.]). Desta forma Jerônimo reconheceu o princípio pelo qual o cânon foi fixado - o julgamento da Igreja, não dos judeus.
Outros escritores protestantes citam como objeção aos deuterocanônicos, que Atanásio e Orígenes não os aceitavam. Ora, Atanásio aceitava o livro de Baruc (Festal Letter 39) e Orígenes aceitava todos os deuterocanônicos, mas simplesmente recomendava não os usar nos debates com os judeus.
Contudo, apesar de alguns disparates e hesitações de alguns escritores como Jerônimo, a Igreja permaneceu firme em sua afirmação histórica sobre os deuterocanônicos como inspirados e vindos com os apóstolos. O protestante J.N.D. Kelly afirma isto apesar da dúvida de Jerônimo:

"Pela grande maioria, porém, os escritos deuterocanônicos atingiram o grau de inspirados com o máximo de senso. Agostinho, por exemplo, cuja influência no ocidente foi decisiva, não fazia distinção entre eles e o resto do Antigo Testamento... a mesma atitude com os apócrifos foi demonstrada nos Sínodos de Hipona e Cartago em 393 e 397, respectivamente, e também na famosa carta do papa Inocêncio I ao bispo de Toulouse Exuperius, em 405" (Doutrina Cristã Antiga, 55-56).

Este é, portanto, um grande mito pelo qual os protestantes acusam os católicos de terem "adicionado" os deuterocanônicos à Bíblia no Concílio de Trento. Estes livros estavam na Bíblia antes de o cânon pretender ser definido, o que ocorreu só em 380 d.C. tudo o que Trento fez foi reafirmar, em face dos ataques protestantes à Bíblia católica, o que tem sido a histórica Bíblia da Igreja - a edição padrão seria a Vulgata de Jerônimo, incluindo os deuterocanônicos!

Os deuterocanônicos do Novo Testamento
É irônico que os protestantes rejeitem a inclusão dos deuterocanônicos pelos Concílios de Hipona e Cartago, porque nestes Concílios da Igreja antiga também foram definidos os livros do Novo Testamento. Principalmente pelo ano 300 havia uma ampla discussão sobre quais livros exatamente deveriam pertencer ao Novo Testamento. Alguns livros, como os Evangelhos, Atos e a maioria das cartas de Paulo foram rapidamente aceitos. Contudo alguns livros, mais notavelmente Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, e Apocalipse permaneceram em ardente disputa até que o cânon foi fixado. São, de fato, "deuterocanônicos do Novo Testamento".
Enquanto os protestantes aceitam o testemunho dos Concílios de Hipona e Cartago (os Concílios que eles mesmos mais citam) para a canonicidade dos deuterocanônicos do Novo Testamento, não estão dispostos a aceitar o testemunho dos mesmos Concílios para a canonicidade dos deuterocanônicos do Antigo Testamento. Realmente irônico!

Cronologia da era apostólica e o desenvolvimento do cânon

Esta cronologia apresenta uma seqüência dos eventos bíblicos e extrabíblicos que refletiram sobre a formação do cânon da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. Afirma-se por aí que dois pesquisadores da Bíblia não conseguem concordar sobre uma cronologia apostólica... Com efeito, a cronologia que apresentamos aqui é aceitável para alguns, mas não pode ser considerada "universal". Serve apenas para fornecer pontos de referência para os eventos que se sucederam e suas conseqüências [sobre o cânon das Escrituras].

EVENTO

DATA

OBRA

Pregação de João Batista

27

 

Vinda do Espírito Santo sobre a Igreja

30

 

Estêvão é martirizado por lapidação

36/37

 

Conversão de Paulo e sua primeira viagem missionária

45/49

 

Concílio [Apostólico] de Jerusalém

50

 

Segunda viagem missionária de Paulo

50/52

 

 

51

1ª e 2ª Epístolas aos Tessalonicenses

Terceira viagem missionária de Paulo

53/58

 

 

54-57

Epístola aos Gálatas

 

57

1ª e 2ª Epístolas aos Coríntios

 

58

Epístola aos Romanos

Viagem [de Paulo] a Roma

59/60

 

1ª prisão de Paulo em Roma

61-63

 

 

 

Epístola a Filemon

 

 

Epístola aos Colossenses

 

 

Epístola aos Efésios

 

 

Epístola aos Filipenses

 

 

Epístola de Tiago

 

65

Evangelho de Marcos

 

 

1ª Epístola a Timóteo

 

 

Epístola a Tito

O apóstolo Tiago é martirizado. Paulo é levado para Roma

63/64

 

Pedro em Roma (Pedro é o primeiro Bispo de Roma)

64

1ª Epístola de Pedro

2ª prisão de Paulo e martírio

67

2ª Epístola a Timóteo

Morte de Pedro. Lino é Bispo de Roma

 

Epístola aos Hebreus

Destruição de Jerusalém

68-70

 

 

70s

Evangelho de Mateus

 

 

Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos

Anacleto é Bispo de Roma

78

 

 

70s/90s

Epístola de Judas

 

90s

Evangelho de João

 

 

1ª, 2ª e 3ª Epístolas de João

 

 

Livro do Apocalipse

Clemente é Bispo de Roma

92-101

1ª Epístola de Clemente

Morte do [apóstolo] João em Éfeso

98

 

Sínodo dos rabinos/judeus em Jâmnia

99-100

Cânon palestinense em hebraico

1º Cânon Cristão do Antigo Testamento

c. 100

Cânon alexandrino em grego

 

100-125

2ª Epístola de Pedro

 

 

Didaqué

Melitão, bispo de Sardes

c. 170

Primeira tentativa cristã conhecida de relacionar o cânon do Antigo Testamento. Melitão lista os livros do AT segundo a ordem da Septuaginta, mas apresenta apenas os protocanônicos do AT, com exceção de Ester.

Ireneu, bispo de Lião

185

Apresenta um cânon do Novo Testamento (sem 3João, Tiago e 2Pedro)

 

c. 200

Fragmento de Muratori apresenta um cânon semelhante ao do [Concílio de] Trento

Eusébio, bispo de Cesaréia

c. 325

Escreve a "História Eclesiástica"; refere-se a Tiago, Judas, 2Pedro e 2-3João como "controversos, ainda que aceitos pela maioria"

Concílio [Regional] de Laodicéia

c. 360

Apresenta um cânon de livros semelhante ao de Trento

Papa Dâmaso

382

Decreto listando os livros canônicos, da mesma forma que em Trento

Concílio [Regional] de Roma

382

Aceitação do decreto de Dâmaso

Concílio [Regional] de Hipona (norte da África)

393

Aprovado um cânon do Antigo e do Novo Testamento (igual ao de Trento)

Concílio [Regional] de Cartago (norte da África)

397

Aprovado um cânon do Antigo e do Novo Testamento (igual ao de Trento)

Exupério, bispo de Toulouse

405

Escreve ao papa Inocêncio I pedindo uma lista dos livros canônicos. Papa Inocêncio oferece uma lista idêntica ao cânon de Trento